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Blog de viniciuspiedade
 


                                       BLOG TRANSFERIDO PARA O SITE OFICIAL DE VINÍCIUS PIEDADE

                                                  acesse:

                                                 www.viniciuspiedade.com.br

 

                          



Escrito por viniciuspiedade às 10h17
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TÁ NO AR!!!!!!!!!!!!!!!

 

SE EU CONTAR A SINA QUE VIVI ATÉ ESSE SITE IR PARA O AR, VOCÊS VÃO DAR RISADAS...

DESDE QUE DECIDI QUE SERIA BOM TER UM SITE COM MATERIAL DAS PEÇAS E DOS LIVROS, O SITE "COMEÇOU" A SER FEITO PELO MENOS DEZ VEZES. PRA VOCÊ TER UMA IDÉIA, EM 2004, FIZ UMA APRESENTAÇÃO DE "CARTA DE UM PIRATA" NO ESPORTE CLUBE BANESPA, EM SAMPA, PRA COMEMORAR O LANÇAMENTO DO SITE... QUE FICOU NO AR UNS QUATRO DIAS... E SUMIU... CADA ROLO... CADA ROUBADA... CADA TENTATIVA...

TUDO, POR CONSIDERAR SITE UM MEIO DIRETO DE COMUNICAÇÃO FUNDAMENTAL, SEM INTERMEDIÁRIOS, NA VEIA, OLHO NO OLHO, SEM VOLTAS, O QUE TENHO PRA PROPOR, PRA DIZER, PRA FAZER, ESTARÁ SENDO DITO E GRITADO NO SITE... CHEGUEM CHEGANDO.... AINDA ESTÁ EM CONSTRUÇÃO, MAS ADIANTO QUE SERÁ UM LUGAR DA MINHA COMUNICAÇÃO CONTIGO... DE ONDE EU ESTIVER, POR ONDE EU ESTIVER, SEMPRE COM OS OLHOS ABERTOS E OS CABELOS AO VENTO, TAL COMO UM PIRATA-ARTISTA QUE GRITA "NÃO SE CONFORMAR, É O PRIMEIRO PASSO PRA TRANSFORMAR"...

 

vini

 

OBS.: um brinde ao Mateus Lopes (ator do grupo Teatro do Pé), que se disponibilizou a fazer o site.

                      www.viniciuspiedade.com.br



Escrito por viniciuspiedade às 00h58
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                                                   Terceiro Mundo

 

 

                                                         "Não gosto mais de você! Quero dizer, gosto de você como pessoa, como amigo, mas não como homem, como namorado, entende? Poderemos ser bons amigos, sei lá, ir comer uma pizza vez em quando, andar pelo centro da cidade, como você gosta, vez em quando, até te ligo pra perguntar se está tudo bem e você faz o mesmo, vez em quando, o que acha? Gosto de você, sei que gosta de mim, então podemos ser bons amigos, não podemos?"

     Ouvir isso da mulher que mais amei, amo e amarei em toda a minha curta mas curtida vida, não é nada fácil. Na hora até que não sofri tanto. Quando recebo notícias ruins, na hora fico frio como um advogado. Uma hora e meia depois é que a coisa toda acontece aqui dentro de mim (nesse país que sou eu), as reverberações se iniciam lentamente até me tomarem até a raiz (ou a alma). Foi assim, por exemplo, quando meu pai morreu (ah, meu pai...), quando minha avó de parte de pai morreu, quando a irmã do meu pai morreu (tia Júlia), quando meu avô de parte de mãe morreu, quando meu primo de parte de mãe morreu (meu melhor amigo até os 13 anos), quando minha primeira professora morreu, quando Raul Seixas morreu, quando Kurt Kobain morreu, quando Tancredo morreu, quando Airton Senna morreu, quando meu gato Leleco morreu e, agora, quando morreu o amor dela por mim (mas na verdade aqui posso dizer bem assim “quando morri” ou “quando morreu ela”). 

     Nesse dia morreu a mulher que era minha e que me dizia você é que é meu, e que gostava de acordar de manhã com uma massagem que aprendi a fazer em seu corpo com meu corpo.

     Morreu a mulher que gostava de assistir a filmes de terror em casa, só pra me beijar nas horas pesadas e gritar de medo e pedir pra protegê-la do mal e subir em mim e gritar com medo e tesão e me chamar ora de herói, ora de monstro, e gritava e gemia e gemia gritando e dizia, depois de tudo, que havia sido o melhor filme de terror da sua vida, vida curta mas curtida, ela dizia.

     Morreu a mulher que me ligava no trabalho quando estava “naqueles dias”, só pra discutir e dizer coisas pra me ofender e depois se arrepender e olhando com olhos de quem clama dizer que só disse aquilo por estar quase menstruada. Infelizmente quando me disse, em outras palavras, me esqueça, ela não estava pra ficar menstruada. Aliás, foi a primeira pergunta que fiz pra quebrar o silêncio de três minutos depois de sua frase que poderia ser chamada de "bomba atômica da minha vida"; ela, com um sorriso que sorri quando está com dó de alguém, disse que não, que tinha pensado muito pra tomar aquela decisão e concluiu que eu seria um grande amigo e tudo mais, que fiz a bobagem de citar agora pouco aqui.

     Acho que falou tudo aquilo para que o impacto fosse menos destrutivo, como alguém que coloca luvas de boxe na mão, não só pra porrada doer menos, mas para o sangue se misturar à cor da luva e ser como nada.

     Num dia, ela assistindo ao filme "A Bruxa de Blair" até a metade, subindo em mim, me arrancando a roupa, me dizendo estou com medo da bruxa, e no outro (o dia seguinte, preste atenção!), me dizendo, em outras palavras, sai-da-minha-aba. Não entendi nada. Não conseguiria entender.  Meu tio, irmão de meu pai e que passou a me tratar melhor quando meu pai morreu (e que quase morre duas vezes em acidentes de carro), me diz sempre: não tente entender as mulheres, elas são totalmente obscuras. Elas são o grande mistério indecifrável da existência humana. Eu falo das belas! Sempre gargalho, não da frase em si, mas do jeito que ele fala.

     Quando acordo, todo dia eu acordo, ultimamente digo infelizmente acordo (dormir é não existir), já que melhor seria não acordar - não estou pedindo a morte, veja bem, peço um sono loooooooooongo-, ouço a frase que ela disse ao me dizer “me larga!”. Ouço a voz dela em tons diferentes, um dia sussurrando, outro berrando, outro implorando, outro gemendo, outro serenamente, todos os tons que ela tem ou que conheço, mas sempre a mesma terrível frase.

     Minha vida de lá pra cá é espera. Espero o tempo agir. O tempo, o tempo, o tempo. Conforme me disse uma amiga de minha mãe que chamo de tia por freqüentar minha casa desde a época em que chamava todos os adultos de tio ou tia, o melhor é relaxar e deixar o tempo te abraçar, só ele levará isso embora, só o tempo te salvará. Então espero o tempo me livrar disso. “Disso” que digo é essa sensação de país devastado pela bomba atômica que sinto nesse país que eu sou. Então só me resta o tempo, quero que ele me ame como a amo. Confio no tempo e tento viver sem olhar pra trás. É difícil consumar esse chavão. Principalmente quando vou aos lugares que ia com ela, começo a lembrar de cenas de felicidade vividas, em câmera lenta, como num filme americano gravado em Nova Iorque ou numa novela qualquer brasileira ou mexicana ou tailandesa. Só que em vez de ver um final feliz, como todos os filmes e novelas desse gênero, o que vejo é um passado, ah, uma vontade demolidora de reviver aquilo, aquilo tudo que vivi nesses tantos lugares com ela, ela com seu jeito e seu hálito, ela com sua ginga e seu hábito, ela com seus risos e seus seios, ela e seus abraços, ah, e seus beijos, ela toda minha, cheia de vontade, ela e seus olhos e eu que sou só saudade, eu e minha saudade, saudade doída, saudade de tudo que é ela que já não é mais minha como foi e como fui todo-todo-todo dela (ou pra ela).

     Tempo, me abrace com fúria, com ardor, com ódio, me leve daqui, tempo terrível, me leve pra longe disso que sou hoje...

     Pensei em me mudar de cidade, eu andava muito com ela pela cidade toda, ou seja, só vivo de lembrança. Nunca levar uma namorada a todos os lugares. É uma grande lição. A lição do dia. A cidade é grande, mas cada dia estávamos em um lugar. Éramos um casal criativo, merda. Pensei em me mudar pra praia ou pro campo, mas minha tia (a amiga de minha mãe que adora dizer o que devo fazer e que adoro seguir quase como se ela fosse a verdade em pessoa) disse que não adiantaria fugir. A lembrança dessa mulher me perseguiria até no inferno (talvez principalmente no inferno).

     Sou um país explorado pelos colonizadores. Ela me colonizou, tirou tudo que tinha de valor. Estou devastado. Sou o Terceiro Mundo em pessoa. Os índios que viviam em mim morreram. Meu ouro já está longe. Sou uma precariedade. Sou a África que foi estripada e estuprada, sou a América Latina sugada, chupada. Sou a Albânia. Sou o Golfo, o Iraque, a Índia. Afeganistão. Sou a Rocinha, sou o Capão, sou Brasilândia, sou Cantagalo. Sou a periferia que segue sangrando lá. A África tem salvação? Algum país da América Latina vai dar certo algum dia? Espero que sim. Quando isso acontecer, essa minha dor vai ser passado, e esse país que sou eu estará em plena ascensão.

     Enquanto isso não acontece, ando desprezando novas amizades (sobretudo, novas amigas)...



Escrito por viniciuspiedade às 23h09
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ESTOU TRABALHANDO NO SITE www.viniciuspiedade.com.br . Logo entrará no ar junto com o novo blog (esse aqui será desativado) que será www.viniciuspiedade.com.br/blog

 

No site disponibizarei contos dos livros, informações sobre as peças, DIÁRIO DE BORDO DE UM PIRATA, além de fotos de cada apresentação e dos lugares onde as peças acontecerem.

LOGO ENTRAREI EM TURNÊ COM AS QUATRO PEÇAS DO MEU REPERTÓRIO: CARTA DE UM PIRATA, CÁRCERE, INDIZÍVEL e DIAS DE ANESTESIA.

 

VALEU A DOCE VISITA. ELA ME É FUNDAMENTAL.

 

vini



Escrito por viniciuspiedade às 22h56
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         O QUE ESTOU LENDO

 

 

                                   Quando eu era moleque e via a pilha de livros que minha mãe lia ao mesmo tempo, eu ficava assustado. Não entendia como ela administrava tanta informação.

Junho, quase julho de 2008: Estou lendo no mínimo a mesma quantidade de livros que minha mãe lia e sei bem como consigo administrar tantas possibilidades!!! São mergulhos únicos. Simples assim!

E divido contigo o que leio agora, ou seja, quais são os meus livros de cabeceira do momento (e que faço tudo pra arrumar tempo pra devorá-los; seja burlando meus horários de trabalho - e eu que sou meu próprio chefe depois brigo comigo mesmo-; seja deixando-me no ônibus para além do ponto que tinha que descer; seja ficando mais tempo no vaso sanitário do que o necessário; seja jogando-me no sofá de casa ou na areia da praia única e exclusivamente com esse fim ou começo.

RUBEM FONSECA- CONTOS REUNIDOS- É puro deleite. Li toda obra de Rubem Fonseca e nesse momento releio o livro que reúne boa parte de sua obra. A parte mais substancial dela: os contos. Conheci Rubem Fonseca na época em que era office-boy e nada mais prazeroso pra mim na época do que olhar as mulheres gostosas pelas ruas da cidade e ler os livros de contos de Rubem Fonseca. Comecei com Feliz Ano Novo (favor não confundir com Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva que é outra história que também me trouxe êxtases mas diferentes de Fonseca) que me arrebatou. Depois li O Cobrador. Aí meu chapa, não deu mais pra parar, Rubem Fonseca na veia: Romance Negro, Lúcia McCartney, A Coleira do Cão, Os Prisioneiros e todos os romances Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, A Grande Arte, Bufo & Spallanzani, Agosto, O Selvagem da Ópera, Do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao meu Charuto...

E por aí vai... É engraçado, mas Rubem Fonseca não me soa profundo... Não fico transtornado quando o leio... Tenho um prazer intenso, mas não fico em transe. É diferente. É um prazer parecido com o de saborear um delicioso prato. Foi talvez na obra dele que descobri ao fundo o que era o prazer de ler. Se na escola me ensinaram a odiar os livros com suas provas em cima de Machado de Assis (assassinado anualmente por professores e métodos que não fazem nada pela literatura, ao contrário), com Rubem Fonseca, aprendi a sentir o que realmente aquilo fazia com minha mente. São prazeres e sabores particulares que cada livro e autor trazem. Lembro-me de ter lido boa parte da obra literária de Sartre em pouquíssimo tempo e isso me trouxe “Náuseas” fundamentais para meu tão presente Inconformismo.  Não por isso eu diria que Sartre foi mais importante do que Rubem Fonseca na minha vida. Aliás, essa cultura competitiva de sempre eleger o melhor ou o mais importante precisa ser mudada. Essa cultura do ranking... Essa competitividade imbecil que vai do nada ao nada.

 

Voltando aos livros de cabeceira: REVOLUÇÃO DO CINEMA NOVO DE GLAUBER ROCHA.  Me causa vertigens demais! O modo como Glauber fala desse movimento e o que fala. Fico até sem palavras de tanto que esse livro fala pra mim. O modo de pensar uma arte brasileira num contexto global. No macro e no micro. O livro percorre diferentes fases do Cinema Novo, do começo ao fim, o que dá pra sentir um pouco do que foi o momento mais importante do cinema brasileiro e mundial.

 

Leio também Diário de trabalho de Bertolt Brecht, o volume I, onde o genial dramaturgo e encenador alemão escreve sobre seus trabalhos numa fase terrível: de 1938 até 1941, época de Hitler. E eu transpiro e inspiro essa obra que me inspira e me faz transpirar.

 

Leio ESCULPIR O TEMPO obra do cineasta Tarkovski que me faz refletir sobre minha própria arte de maneira única. Tarkovski é um daqueles cineastas que te muda a vida. Ou o contrário: te faz se perguntar QUE PORRA QUE ESSE DIRETOR QUIS DIZER COM ISSO? É bem por aí. Os ritmos de seus filmes, a fotografia e as histórias causam uma repulsa intensa ou uma atração vital. E entender o modo como ele pensa sua arte, me influencia de maneira profunda. Quando li que, ao contrário do que muitos pensam, ele se preocupa muito com as percepções do público sobre seus filmes, fiquei em estado de choque. O modo como ele conta isso, me fez refletir sobre o que é popularizar uma obra tratando o público com dignidade e o que é emburrecer sua obra em nome de um entendimento medíocre do público. Claro que estou simplificando. O certo era eu fazer uma resenha sobre cada livro. Mas estou de passagem. Aportei em sampa por dois dias, mas volto a viajar amanhã pra participar de um festival de teatro. Um festival competitivo. Teatro não é campeonato. Já falei isso. Mas paradoxalmente, tenho curiosidade em saber como minha peça H.E.R.Ó.I.S.- CÁRCERE será recebida pelos jurados do festival. Talvez a cultura da disputa também percorra meu sangue. Mas quero lutar contra essa merda. Consumando o melhor com fim em si. O melhor de mim é a única coisa que posso dar. Mas dizer “o melhor de mim” não é focar uma auto-competição? Sei lá, estamos cercados!

 

Mas o livro que mais me causa ansiedades no momento, que me faz querer parar toda hora pra ler, mais que isso, investigá-lo, é NOTÍCIAS DO PLANALTO de Mário Sérgio Conti. Peguei esse livro emprestado essa semana (mas vou devolver, prometo - mesmo que desrespeitando a frase que diz que no mundo existem dois idiotas: os que emprestam livros e os que devolvem) e não consigo largá-lo. Cheguei ao cúmulo de sorrir ao ver que teria que enfrentar uma grande fila no banco. E ao ver a fila andando rápido cheguei a reclamar com as pessoas que estavam atrás de mim. Mas uma reclamação ao inverso: “que saco de fila rápida!”.

 

No livro, o autor fala sobre o comportamento da imprensa na eleição de Fernando Collor de Mello. Mais que isso. Investiga a ascensão e queda do Fernandinho. O modo como ele, que era Governador de Alagoas se articulou com a imprensa brasileira para se eleger. Como ele vendeu a idéia de CAÇADOR DE MARAJÁS e ultrapassou políticos que já tinham uma história e eram conhecidos do povo brasileiro, como Lula que era conhecido desde 80 pelas greves sindicais ou Brizola com toda história do seu exílio e do seu retorno. Além desses, desbancou Mário Covas, Paulo Maluf, Afif, Caiado, Freire, enfim políticos que já vinham mostrando a cara antes de 89.

Quando o autor faz uma abordagem sobre o comportamento de um meio de comunicação como a revista Veja, por exemplo, ele não fala só do período: faz uma genealogia da revista. Investiga. Fala de seu surgimento de forma rápida, mas profunda. Fala das diferenças da revista na época em que o diretor de redação era o genial Mino Carta, por exemplo. Como era a revista na época do excelente Elio Gáspari. E como era em 89 quando Collor chegou chegando. Essa revista que hoje é a pior merda impressa nesse país, já foi interessante um dia. Muito tempo atrás. Mas na época de Collor, ela já caminhava para esse lixo de hoje: A mesma revista que se orgulha de ter denunciado Collor através de Pedro Collor naquela famosa capa com a cara do panaca dizendo PEDRO COLLOR CONTA TUDO, deu uma capa pra ele que foi fundamental para seu aparecimento, numa época em que ele era conhecido apenas em Alagoas. Na capa intitulada O CAÇADOR DE MARAJÁS, aparecia Collor na frente de um quadro de Deodoro da Fonseca com a espada erguida.

O MODO COMO AS ORGANIZAÇÕES GLOBO INFLUENCIARAM NESSAS ELEIÇÕES APARECE COM UMA CLAREZA INCRÍVEL.

Todos os veículos importantes desse país são analisados de forma imparcial e interessante. Focando os seus personagens principais e suas carreiras jornalísticas.  É um livro não só pra jornalista, mas pra quem tem interesse em entender um pouco mais esse país que vivemos.

 

Preciso arrumar a mala. Se não falaria dos livros que estão na próxima leva... Como O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro que está pra ser rererelililido.

Mas já que nesse blog existe o item comentários, gostaria que você o usasse pra dividir comigo qual ou quais livros está devorando no momento.

 

SARAVÁ

 

vini 

 

 

 

 

 



Escrito por viniciuspiedade às 02h20
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            COLOCO ABAIXO O PRIMEIRO CONTO QUE "PUBLIQUEI". EU ERA OFFICE-BOY E TIRAVA AS XEROX DO LUGAR ONDE TRABALHAVA. ENTÃO, TIREI UMAS DUZENTAS XEROX DO CONTO E SAÍ DISTRIBUINDO PARA TODOS QUE CONHECIA. EU TINHA DEZESSETE ANOS.

 

Juízo final

 

 

Daqui a pouco, a grande hora. Falta pouco. Tô sem relógio, mas quando os fogos começarem, sem parar, é o sinal de que já é dia 25 de dezembro, o dia mais longe do ano, independente de que dia seja. O outro coveiro que trabalha comigo, deve estar com a família nesse momento. Deve estar se divertindo. Filho-da-puta. Não por estar com família, nós fizemos um acordo, eu ficaria trabalhando no Natal e ele no Ano Novo. Agora que ele tem uma família, ele acha fundamental passar o Natal com ela, não podia ser diferente, ele só fala nisso. Porra, enche o saco, eu sei de tudo que acontece na família dele, sei até como foi o sexo que ele fez para nascer seu filho. Foi aqui no cemitério. A esposa dele veio trazer flores para um filho que ela perdeu, filho que não foi feito com ele, mas antes de eles se conhecerem. Esse filho, morreu atropelado aos 5 aninhos, quando foi pegar sua bola amarela no meio da rua. Ele, o coveiro que trabalha comigo, era amigo do pai do garoto e conseguiu um pedaço de terra para que eles enterrassem o garoto aqui. Esse cemitério é de grã-fino. Só corpo de gente da alta sociedade por aqui. Muito artista. Inclusive, o corpinho da criança está enterrado entre um apresentador de televisão e uma cantora famosa. Mais um pouco à frente, a sepultura de um presidente. A mãe da criança ficou imensamente orgulhosa. No dia do enterro, de madrugada, horário em que no cemitério só ficamos nós dois, ela começou a gritar que se o filho não teve uma vida digna, por culpa do desnaturado pai, ele teria um enterro de primeira, enterro de artista importante. O filho iria para o mesmo céu dos artistas. Ela ficou muito agradecida ao meu companheiro de trabalho. Tanto que lhe deu um beijo de língua para agradecer. Ele se apaixonou. Ficou doente e tudo. Acho que ele nunca tinha beijado. Também, feio do jeito que ele é, que mulher iria querer beija-lo? Assim eu pensava até conhecer o caso dele. A esposa dele não é nenhuma jogada fora. É boa. Principalmente por ele me falar tudo que ela faz na hora boa. Ela se apaixonou por ele. Sei disso. Dá pra perceber!

Não é possível ela se apaixonar pelo que ele é fisicamente. Ele é feio demais! Mas o que ele faz e o que ele é pra ela, é o que vale. Depois do enterro, ela passou a vir aqui todas as noites. De dia são outros coveiros. Ele, o meu parceiro, disse pra coitada só vir de madrugada. Ele sempre a acompanhava até o pedacinho do garoto. Não dava nem pra perceber que lá havia um corpo. Ele disfarçou bem a cova.

Ele, apaixonado, preparou uma bela surpresa pra ela: mandou fazer uma lápide com o nome do garoto. Ele esconde a lápide até cinco minutos antes dela chegar, quando ele coloca no lugar onde mora o corpinho do garoto. Ficou linda a lápide. Mais chique que a do presidente. Ele, o filho da puta que trabalha comigo, é amigão do cara que faz essas pedras com o nome dos mortos. Daqui a pouco eu explico por que chamo esse meu querido companheiro de trabalho, de filho da puta. Ela ficou tão empolgada com a lápide, que o agarrou e cruzou a noite inteira com ele. Em cima da cova do filho. Eu me assustei. Os gritos dos dois eram capazes de acordar os mortos. Teve uma hora que quis gritar pra eles fazerem menos barulho. Mas eles gritavam tão alto, que minha voz seria nula. Foi nessa que nasceu o filhinho deles. O nome é o mesmo do que ela perdeu. Parece até que ela acredita que a alma do filho saiu do céu dos artistas e hoje habita esse corpo novo, agora com um pai de primeira. Palavras dela. Pode ser um pai de primeira, mas que é filho da puta é.

Agora, a poucos minutos do Natal, estou indo cagar. Sempre que fico com muito medo de alguma coisa, sinto uma vontade insuportável e insegurável de ir no banheiro. Isso me irrita. Mas fazer o quê? Aquele coveiro contou cada história que não consigo nem respirar direito. Eu nunca trabalhei no Natal. Sempre é ele. Até no ano passado foi ele quem trabalhou, mesmo com o filhinho. Parece que a família veio passar o Natal aqui.

Ele disse que é nessa data que as almas dos mortos saem das tumbas para ir ou para o inferno ou para o céu. Ele disse que o Natal foi criado justamente pra isso. Ele disse que o Papai Noel, é uma mistura do Diabo com Deus. Ele até quis me provar: o vermelho da roupa e touca do papai Noel vem do diabo. A própria touca do papai Noel vem do diabo. Como é meio Deus meio Diabo, só vem com um chifre. Caído, mas é um chifre. O bondoso velhinho dentro da roupa, é a cara de Deus. Os brancos espumados da roupa do papai Noel, vem do céu de Deus. A bota é mista. Meio de Deus pelo pé no chão e pela força positiva e meia do Diabo pelo jeito assustador e pela força negativa. O saco é do Diabo, parece até que ele leva as almas para o inferno dentro de um saco daquele. E os presentes são de Deus, pois sempre trazem alegria. Os gnomos que fazem os brinquedos são anjos do céu e as renas são os cachorros do inferno. E por aí vai. Parece que o Belzebu vem pessoalmente buscar seus escravos. Deus também, vem cercado de Santos. Sempre o Diabo joga uma partida de xadrez com Deus. E os anjos sempre lutam com os capetas. Os bons vão voando para o céu de braços abertos e os maus vão berrar ao se verem cercados por sombras, e vão diretamente encarar o fogo do inferno. Parece que Deus e o Diabo também tiram braço de ferro, joquempô, par ou impar e gol a gol. Quanto mais eu lembro disso mais eu cago. Por isso chamo meu amigo coveiro de filho da puta: ele me contou essa história pra me deixar assim como estou agora, cagando. Não que eu pense que vá acontecer tudo isso. Nem acredito nessa história, mas que eu fico com medo, fico.

Finalmente saí do banheiro e vejo a lua. Já não estou mais com tanto medo.

Está me dando caganeira. Estou com muito medo de novo. Os rojões começaram a estourar. Já é meia noite. Acho que é agora o tal do juízo final. Feliz Natal! Seja o que Deus quiser...

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por viniciuspiedade às 09h32
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                     NA ESTRADA

 

Apita o juiz. Começa o jogo. A peça H.E.R.Ó.I.S. já está na estrada. 

E na estrada olhando aquela paisagem típica de estrada, vaquinhas e árvores, repensei minha vida. Não sei porque, sempre que estou numa estrada repenso minha vida. Isso se torna um problema quando se viaja muito como eu. Entendeu porque sou assim, estranho?

Estou de passagem aqui na internet. Com fome. E com fome fico de mal humor. Mas meu mal humor não é maior do que meu amor, nem meu ardor, calor, sabor, dor e humor. Sempre uso esse rima. É péssima, eu sei, mas eu gosto, você sabe.

Só vim dizer que estou conectado a vocês, que tem navegado nos meus textos piráticos... e nas minhas comédias inconformadas!

Na estrada, repensando minha vida, concluí como tem sido vital essa troca com vocês via peças, livro e esse blog!

A luta é grande. E confesso que as coisas estão difíceis.

Mas faz parte do jogo.

Vamos nessa.

SARAVÁ

vini

 

 



Escrito por viniciuspiedade às 18h05
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   DIÁRIO DE BORDO

 

ESSA SEMANA VOLTO A COLOCAR O BARCO PIRATA NO MAR. DEPOIS DE ALGUNS MESES SEM FAZER O GRITO PIRATA REVERBERAR, O GRITO VOLTA A ECOAR, ANTES DE DAR CONTINUIDADE A TURNÊ DA NOVA PEÇA H.E.R.Ó.I.S. QUE VAI APORTAR EM VITÓRIA SEMANA QUE VÊM. O PIRATA ACONTECE EM SAMPA. 

AÍ, LEMBREI DE UM LIVRO QUE IA ESCREVER CHAMADO DIÁRIO DE BORDO DE UM PIRATA, CONTANDO SOBRE HISTÓRIAS VIVIDAS NA TRAJETÓRIA DE 5 ANOS DA PEÇA.

Talvez ainda escreva esse livro. Mas o que faço agora é, simplesmente, deixar a mente passear e lembrar coisas vividas por aí com a peça...

 

* Era uma apresentação para a juventude do MST e eles tinham trabalhado o dia inteiro. Teria a peça e depois o jantar. Batatas. Assadas, purê e fritas. Batatas. Que estavam sendo feitas ao fundo do espaço, lado oposto onde ficava o palco. Reparei que na metade da peça, eles mais olhavam pra trás, pra ver se as batatas estavam prontas do que pra mim. Então, num ápice de emoção do pirata em meio ao mar, eu improvisei uma cena em que os piratas encontravam comida depois de tempos de fome no mar. E conclamei aos gritos " VAMOS AS BATATAS! VAMOS AS BATATAS". Eles entenderam bem o recado e aplaudiram. Não me lembro de ter comido batatas melhores na minha vida. 

* No encerramento do festival de teatro do Acre, o teatro estava entupido, tinham umas 600 pessoas, quando eu fiz uma cena em que o personagem grita "que entrem os outros atores!". Naquele momento, subiu um bêbado no palco dizendo que estava esperando essa oportunidade. Apesar do susto, gostei da intervenção e abri o espaço para suas poesias. Depois, levei-o para seu lugar e continuei a peça. Mais tarde fui saber que ele é um poeta muito conhecido por lá.

* Eu estava pra ser despejado de onde eu morava e começava a ficar preocupado com a falta de perspectivas concretas com a peça. Fui tomar café da manhã numa padaria contando as moedas. Pedi suco de laranja e pão com manteiga na chapa. Meu telefone tocou e, ao invés de ser alguém me cobrando, como eu esperava, era o diretor do Sesc do Rio de Janeiro dizendo que uma proposta minha havia sido aceita e que eu faria uma turnê por vários Sesc´s do Estado. A grana era boa e me viabilizaria alugar um apartamento até melhor do que estava. Mas, minha primeira providência foi substituir o pão com manteiga por um misto-quente.

* Em uma das primeiras apresentações em escolas públicas de São Paulo, eu disse para o diretor da escola que a peça que eu propunha estava em turnê nacional. Eu nunca tinha saído de Sampa com a peça. E ele perguntou por onde eu havia passado e eu menti meia dúzias de capitais brasileiras. Um ano depois eu, de fato, eu já havia passado por todas aquelas capitais. Talvez não tenha mentido pra ele. Tenha só adiantado uma verdade.

 

* Numa dessas apresentações em escola pública, eu fazia o pirata pra umas duzentas pessoas quando bateu um sinal. Todos os alunos, sem cerimônia, se levantaram e saíram. Foram embora. Fiquei fazendo a peça pra uma moça que veio me dizer ao final que aquela havia sido a melhor peça da sua vida. Era a primeira também.

* Depois de uma apresentação muito vibrante num grande teatro de Teresina- PI, fiquei uma hora no chuveiro gelado. Eu chorava e lavava a alma. Aquilo tinha sido muito intenso. Ao sair do camarim, já refeito, uma galera esperava pra falar comigo. Aquilo me fez sorrir e concluir que a coisa tinha sido intensa também para o público, o que me trouxe alegria única.

* Quando fazia o pirata no teatro Cacilda Becker em Sampa, a chuva era tão forte que começou a pingar no palco. Parei a peça algumas vezes pra abrir a boca matando minha sede com goteiras.

* Na minha única estada em São Caetano, pouco tivemos tempo pra fazer divulgação, então, pouquíssimas pessoas ficaram sabendo da peça. Entre elas, um casal que já queria ver peça minha e chegaram duas horas antes pra garantir seus ingressos. Estavam sem dinheiro trocado, e como meu produtor da época não tinha troco, pediu pra que fossem trocar seu dinheiro numa padaria que ficava do outro lado da rua. O cara só foi mediante a garantia de que seus ingressos estavam assegurados. Fez o produtor destacar e escrever seus nomes nos ingressos. A peça foi feita só para o casal.

* Numa sala de aula, os alunos se aglomeraram pra ver a peça que aconteceu em um canto. Vendo-os navegar na peça sem cenário e sem iluminação, apenas ator e público, constatei pela primeira vez na carne, a força humana que tem o teatro.

* Num presídio feminino do Espírito Santo, em uma cena de humor, o tempo parou para que eu olhasse os sorrisos que me cercavam. Os sorrisos conseguiam fazer aquele lugar terrível ser menos terrível. Vi que todos - sem exceção - sorriam, as presas, as carcereiras, as diretoras do presídio e até o policial em cima do muro com uma metralhadora na mão. O tempo parou pra que eu visse aqueles sorrisos que volto a ver agora, como se os sorrisos ainda estivessem fazendo o sol brilhar naquele lugar de dor.

* Gol! Gritou o rapaz que escutava o jogo no meio da peça. No início fiquei incomodado, mas ao saber que havia sido gol do timão, comemorei com ele e voltei a atuar.

* Em Salvador o teatro tinha ao fundo um vidro ao invés de ter parede por um motivo muito simples: a baía de todos os santos estava lá atrás. Na última cena da peça as cortinas do fundo se abriam e o público via as luzes dos barquinhos ao longe.

* Todos tinham me dito que a peça seria um fiasco naquela noite numa escola de ensino supletivo por causa da final do Big Brother. Não quis cancelar. Disse que se viessem dois, faria para os dois por eles terem rompido o óbvio, o que esperavam deles. O teatro entupiu de gente.

* Aquela empresa possivelmente patrocinaria a peça se os funcionários gostassem dela. Então, a diretora quis marcar apresentação para as sete da manhã, antes do horário de trabalho. Os funcionários que normalmente chegavam as oito foram convocados a chegar mais cedo nesse dia. Imagine você mesmo, como foi terrível para mim fazer peça pra eles e como foi terrível para eles ter que me assistir. No final todos ficamos felizes quando acabou.

* Eu fui para o festival sem dinheiro pra voltar pra casa. Havia viajado quarenta horas de ônibus pra chegar lá e só teria como voltar se ganhasse algum prêmio que era em dinheiro. Sempre desprezei os prêmios por saber que teatro não é campeonato. Mas esse eu precisava. E... voltei de avião.

* Numa cidade do interior de Sampa não havia teatro, só havia cinema, então, interrompemos a sessão do dia para fazermos a peça... aí eu bolei uma musiquinha que ficou ruim, mas legal: "excepcionalmente hoje não haverá cinema... excepcionalmente hoje haverá teatro!!!"

...  a seguir cenas do próximo capítulo... continua...

 

 

 



Escrito por viniciuspiedade às 01h48
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         Santos

 

 

Essa semana volto ao Teatro Municipal de Santos. Por lá tive uma passagem inesquecível com o solo CARTA DE UM PIRATA em 2006. Mais de 500 pessoas navegando na peça do começo ao fim. Uma conexão com o público inesquecível. A partir daí, Santos virou rota obrigatória das minhas peças. Dias de Anestesia passou por lá e foi muito bem acolhida. Por falar em DIAS DE ANESTESIA, decidi remontar essa peça esse ano. Eu mesmo vou atuar como o palestrante piegas de livros de auto-ajuda. É uma sátira dramática absolutamente pertinente com os tempos em que vivemos. Esses DIAS DE ANESTESIA. Logo mais falo mais sobre isso. O fato é que o foco agora é H.E.R.Ó.I.S. em Santos. Manu, o pianista, vai ter um piano de calda pra tocar. Isso dá um peso maior ainda pra sua atuação tão viva na peça. Márcio Baptista que controla som e luz, terá mais recurso pra executar sua arte.

E eu absolutamente empolgado para o reencontro com o público santista. Tive uma prévia sábado passado no show do Teatro Mágico. Foi incrível. Estávamos todos muito inspirados. E o público do Teatro Mágico é sempre muito disposto. Minha participação foi como sempre inesperada e depois do susto inicial, o público entrou na onda de maneira intensa. Deu pra sentir o sabor do que vai ser esse reencontro.

H.E.R.Ó.I.S. consiste em duas peças que foram apresentadas no porão do Centro Cultural São Paulo para um número limitado de pessoas. Foi ótimo a ambientação naquele lugar. Tinha tudo a ver sobretudo com a peça do preso. A peça se adaptou naquele lugar tão único. Mas agora, chega a hora de se adaptar ao palco italiano. E a um público bem maior. Começa a navegação. Agora ninguém nos segura. saravá!!!

 

vini 

 

 



Escrito por viniciuspiedade às 13h12
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Estava dormindo e o barulho da chuva na minha janela me acordou. Pensei em dormir com essa trilha deliciosa de fundo, mas junto com o barulho veio o cheiro da chuva que me fez querer levantar e andar pelas ruas da cidade. Levantei. Coloquei calça jeans e casaco. Esqueci o celular, a carteira e o guarda-chuva. Claro. Andei até o joelho doer e cheguei agora. Talvez pegue uma gripe. Estou encharcado. E com uma sensação que gostaria que permanecesse em mim até o fim dos meus dias.

 

Ontem eu fiz uma performance num show e babei intensamente no palco.

 

 

Vendo a ênfase dos comentaristas de futebol nas suas opiniões na televisão, fiquei me perguntando o que eles achavam sobre as outras coisas do mundo não futebolísticas.

 

Quando vejo jovens comediantes nas suas comédias stand-ups, dou risadas e fico agoniado ao mesmo tempo. Dou risada porque acho engraçado e fico agoniado com seus desesperos de fazer rir CUSTE O QUE QUE CUSTAR.  

 

 

O Al Gore, ex-vice-presidente-dos-Estados-Unidos-da-América e candidato a presidente derrotado por George W. Bush no primeiro mandato do idiota, aparece para o mundo inteiro como um homem absolutamente preocupado com o aquecimento global. Ele é o narrador daquele documentário que “chocou” o mundo sobre a possibilidade do apocalipse devido ao aquecimento chamado AN INCOVENIENT TRUTH (Uma verdade inconveniente). Mas, o fato é que a verdade mais inconveniente pesa para o próprio Al Gore. Ele foi vice-presidente americano durante toda a administração Clinton (de 1993 até 2001), e não fez nada realmente importante pelo tema. Al Gore recebeu o prêmio Nobel da paz em 2007, junto com o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU, "pelos seus esforços na construção e disseminação de maior conhecimento sobre as alterações climáticas induzidas pelo homem e por lançar as bases necessárias para inverter tais alterações". Recebeu ainda o Prêmio Príncipe de Asturias de la Concordia de 2007, galardão concedido pela Fundación Príncipe de Asturias, na cidade de Oviedo (Espanha). Por essas e outras que eu desprezo qualquer tipo de premiação. Pra mim, não significam nada fora dos esportes. Al Gore e sua falácia toda, é o símbolo de uma coisa tão comum nos dias de hoje. Essa coisa das empresas, bancos, supermercados e todos mais se dizerem preocupados com questões ambientais ou sociais, são da boca pra fora. Esse tipo de ação não combina com o capitalismo e esses imbecis sabem muito bem disso. Simplesmente se adaptam ao que está em voga no momento. Se as ações da moda fossem exatamente opostas a essas de hoje, estariam defendendo-as com o mesmo interesse fajuto e “dignidade” pré-fabricada com que “defendem” essas causas urgentes do momento.

 

Milton Santos. Tenho lido coisas do geógrafo Milton Santos que me deixam absolutamente impressionado. Ele tenta entender o Brasil e sua precariedade, através da ocupação do seu território. O modo como esse território é ocupado. É fundamental. Nunca me interessei por geografia na escola. Nem por história. Nem por merda nenhuma. Capitanias Hereditárias não significava nada pra mim. Nem cana-de-açucar. Nem política café-com-leite. Eu decorava aquela baboseira toda pra escrever na prova, mas sem querer entender o que aquilo siginificava de fato. Ou, sem entender que aquele processo todo resultava nessa merda vigente no Brasil de hoje. No mundo de hoje. Os professores ou o sistema educacional não tinham capacidade de me fazer entender do que aquilo se tratava. Eu e os outros de todas as salas de aula em que estudei.  Pedro Alvares Cabral. Latitude e longitude. Verbo to be. Fração. Raiz quadrada. Paroxítona. H2o. Eu era só mais um engolindo as matérias pra vomitar nas provas. Tirar um C era o suficiente. E tirava. Mas garanto que os que tiravam A não sabiam realmente mais do que os caras que tiravam D. Os que tiravam A, no máximo, decoravam melhor. Mas o tempo passou e por uma série de encontros e desencontros, passo a me interessar por geografia. Entendo que através disso, entendo-me no espaço tempo presente. Espero que a galera que tirava nota A também tenha esses encontros, tal como a galera que tirava nota D. É a partir daí que algo realmente acontece. Ao contrário da decoração tola dos meus tempos de escola. E viva os Paulos Freires do mundo que entendem que educação é mais do que definir o mundo com nomes e fórmulas.

 

Andei olhando os blog logs das celebridades. Achei incrível como a galera consegue falar e falar e falar e não falar merda nenhuma. Incrível como tem gente que se interessa por nada. Alguns blog logs tinham sete mil comentários. É incrível como a fama é sedutora. Vivemos a cultura das celebridades. O culto ao nada. A pessoa fica conhecida e passa a ser cultuada por... ser conhecida. E tudo que ela faz ou diz, julgam interessante, profundo e bom. Engraçado e divertido. E o pior é que os “artistas” acreditam nisso. Recebem o beijo do vampiro. Acreditam na própria importância... sem saber que o pra sempre, sempre acaba. Mas nada vai conseguir mudar o que ficou. E o que ficou? Nada.

Mesmo assim, depois de ler tantas palavras dizendo nada, brindo os nossos tempos em que todos e qualquer um podem ter blog. É a coisa mais democrática depois do teatro. Qualquer um pode fazer e ter. Mesmo que pra não dizer nada. Um brinde a isso.

 

Um brinde também ao nada que estou dizendo. O que digo também é um nada. Mas é um nada berrado. Eu tô berrando... tô babando... tô suando... e tô molhado... acabei de pegar chuva e liguei um Radiohead alto que é a coisa mais impressionante que conheço. São os artistas mais importantes do mundo. Pelo menos pro Vini. Junto com Lars von Trier. Eles não são reféns do seu público. Não ficam gritando palavras de ordem que seu público quer ouvir e criam suas obras sem medo de desagradar. E mesmo assim agradam. Tocam. Transformam. Tudo o que fizeram e fazem. E farão. Eles sim são importantes e dizem em atitude e sonoridade seus excessos e faltas. Cantam nossas vidas com suas contradições.

 

Esses dias eu me dei conta da minha insignificância. Fiquei feliz. Caiu aquela máscara de importância que quase todo artista tem. Como se sua obra fosse fundamental para a humanidade. Isso me trouxe uma leveza única. E fez com que eu me sentisse único. Aí sim passei a ser realmente importante. Por ser único. Eis o paradoxo. Nao tenho nenhuma importância e tenho plena consciência disso. Nenhuma. Zero. E ao não ter importância, liberto-me de pré-jugamentos  e limites e passo a ser único. E sentir-me único me faz sentir-me importante... mesmo sem ter importância nenhuma... entende?

 

Estava lembrando esses dias da época em que estava escrevendo meu livro TRABALHADORES DE DOMINGO. É um livro sobre profissões. Cada conto tem uma abordagem diferente sobre uma profissão. Estava lembrando justamente da época em que eu o escrevia e da paranóia que fiquei. Eu ficava estudando as profissões. Do meu jeito. Pegando táxi só pra conversar ou observar um taxista com outros olhos, não como passageiro indo pra um lugar X. Virando garçom. Animando festa de criança. Procurando apartamento só pra conversar com corretor de imóvel. Entrando em lojas de shopping para observar vendedores, gerentes, estoquistas. Nunca dizendo minhas intenções literárias. Sempre me colocando nos contextos. Sendo outra pessoa. Sendo o cara interessado na rifa pra ganhar o ursão. Conversando com prostituta, porteiro, empresário, maratonista. Piloto de avião. Garagista. Panfleteiro, advogada, engenheiro mecatrônico. Segurança, enfermeira, faxineiro. Engenheiro civil. Arquiteta. Paisagista. Homem-placa. Vendedor de limão, de trufa,  de seguro, de maconha, de biscoito no farol. Equilibrista, manobrista, palhaço. Professor, ladrão, turismóloga. Recepcionista. Bailarina. Executivo. Atriz. Dentista. Modelo. Meu senso de observação chegava a ser exagerado. Se estivesse contigo num bar, meus olhos estariam voltados pra menina vendendo flores, para o carinha do amendoim, para o cumim, para o gerente, para alguém falando do seu dia de trabalho. E se estivesse te olhando, estaria falando sobre sua vida, baseada na sua profissão.

 

 A chuva parou lá fora. Mas continua aqui, na minha pele molhada, na minha calça úmida, na minha meia encharcada.

 

Agora já posso dormir com a sensação de que a vida aconteceu mais intensamente. Preciso sentir isso. Ontem, andando num shopping e olhando aquela vida pasteurizada à minha volta, senti que precisava diariamente me perguntar se eu estava virando mais um consumidor. Como diz Milton Santos, as pessoas agora não são mais cidadãs. São consumidoras. Eu não quero ser consumidor. Não quero ser como um ratinho de labratório. Quero me surpreender. Custe o que custar. Não quero ter que fazer rir. Custe o que custar. Quero o inesperado. Devir.

 

Uma última coisa. Uma coisa importante. Muito importante. Agora eu sou padrinho de um rapazinho chamado Pedro. Isso me trouxe algo único. Quando aceitei ser padrinho de Pedro, não sabia que no dia seguinte ao convite eu acordaria diferente. Como que querendo ser um cara legal... um cara que faz coisas legais... um cara legal para o molequinho falar para os amiguinhos do seu padrinho... Já amava o molequinho, mas esse amor se potencializou com a possibilidade de um contato de vida e pra vida. Ainda estou absorvendo isso, mas o que posso dizer é que viver já era bão demais e com isso, ficou melhor ainda.

 

 



Escrito por viniciuspiedade às 03h33
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TUDO QUE GOSTARIA E PODERIA E DEVERIA DIZER ESSA SEMANA ESTÁ DITO NESSE VÍDEO DO YOUTUBE QUE COLOCO ABAIXO... DITO EM ATITUDE... EM INTENSIDADE... UM FILME QUE VI NO FIM DE SEMANA CHAMADO "APENAS UMA VEZ" EM QUE LOGO DE CARA, UM CANTOR DE RUA SE EXPRESSA DE MANEIRA ÚNICA.

 E TENHO A ALEGRIA DE DIVIDIR CONTIGO COMO SE FOSSE COISA MINHA, POIS O CANTO DELE, VIRA GRITO NOSSO, BABA NOSSA DE CADA DIA!

 

http://www.youtube.com/watch?v=h0Uf4JZWzgE   



Escrito por viniciuspiedade às 23h50
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Pseudo-poesia

 

 

 

 

Glauber Rocha me inspira de maneira exagerada. O cineasta e amigo Júlio Martí, chama o livro A REVOLUÇÃO DO CINEMA BRASILEIRO de bíblia. Eu concordo. Sorrindo. Os livros de Glauber e seus depoimentos no programa que fazia chamado ABERTURA (disponível no youtube) me motivam estética e politicamente como nada mais o faz.

 

 

A imprensa se mostra cada vez mais esdrúxula. Tenho vergonha de assistir jornais na TV. Fico constrangido e me sentindo um idiota com o show de horrores que provocam. Fico constrangido com tanto jornalista medíocre fingindo ter opinião própria mas sem conseguir esconder que suas opiniões são simulacros de opiniões pré-fabricadas por outros jornalista tão ou mais estúpidos que esses.

 

 

Não reagi com alegria a notícia de que a TV Record alcançou a TV Globo em audiência, pelo fato de que a TV Record simplesmente imita a Globo em forma e conteúdo. Até os profissionais são os mesmos. Amaria se uma TV aparecesse com uma proposta nova e disputasse de igual pra igual com a Globo. Ter duas globos, não muda em nada esse panorama televisivo repetitivo e careta.

 

Tostines é fresquinho porque vende mais? Queremos merda e eles colocam merda ou comemos merda porque nos jogam merda?

 

A árvore em frente a minha janela começou a oferecer limões. Do nada. Eu não sabia que era um limoeiro. Do nada apareceram os limões. Foi um susto. Como se alguém me falasse coisas inesperadas.

 

 

Ver Vanessa da Mata cantando foi uma das coisas mais deliciosas que vi nos últimos tempos. Me empolga mais do que qualquer ator (menos Al Pacino). Ela mergulha nas suas canções de modo apaixonante.

 

 

Contei 20 estrelas hoje no céu de sampa. E dizem ainda que não tem estrelas no céu de sampa. Claro que tem! Tem 20! Vinte!

 

 

Tá frio. Escrevo no frio e a temperatura influencia na escrita de qualquer um. Se Castro Alves tivesse escrito no frio seu texto seria outro. O mesmo vale pra Dostoievski se tivesse escrito no calor.

 

 

Isso aqui é mais uma daquelas pseudo-poesias que adoro escrever. Frases que parecem ser desconexas. E são!

 

 

Minha metralhadora cheia de balas. Eu sou um cara. Cansado de correr na direção contrária sem pódio ou beijo de namorada. Eu sou mais um cara.  

 

 

Voltei pra natação. Uma sensação incrível. Um cansaço bom, como se eu tivesse feito algo necessário.

 

Correr. Adoro correr. Taí uma coisa que sempre faço nas cidades em que aporto. Eu corro. Escolho um lugar e corro. Lembro de sensações incríveis correndo. Em Rondônia eu corria numa estrada. Lembro dos caminhões imensos me ultrapassando. Me dava medo e alegria. Em sampa eu corro por aí. No interior de sampa, uma vez, um boi saiu correndo atrás de mim. No Rio eu corria em Ipanema olhando pra cara pálida das pessoas conhecidas esperando ser reconhecidas. No Paraná corri do frio e em Salvador corri de Itapuã até a Boca do Rio. Em Vix claro que Camburí e em Brasília não me faltou horizonte. No Piauí não me faltou pique e no Acre corri vendo o pôr do sol. Ao invés de tirar foto, eu corro. Suor na terra. Joelho doendo. Coração acelerado. Lei da gravidade.

 

Sou contra o terceiro mandato, mas se tivesse, votaria no Lula. Se tivessem cinco mandatos, votaria no Lula.

 

Tenho escutado Lennon de manhã, de tarde e de noite.  

O engraçado foi escutar minha visinha, uma senhora de oitenta anos, cantarolando “Jealous Guy” no corredor outro dia. Acho que tenho que escutar mais baixo. Ou mais alto ainda. O que acha?

 

 

Fui ao show do Jorge Ben e senti uma alegria dionisíaca. Todos dançavam e pulavam em êxtase. Cinqüenta mil. Eu que me perguntava semana passada sobre o que acontece com alguns artistas que param de criar, como o próprio Jorge Ben, Toquinho, Edu Lobo, enfim, tive minha resposta do Jorge. Sua obra está aí, viva. E VIVA!

 

Hoje o dia foi mais curto que o normal. Ou será que fui eu que quis degustar a vida mais do que o tempo de um dia permite?

 

Não penso na morte. Por isso não sou religioso. Vivo meu agora. Não me preparo para o pós. Nem quero pensar nisso. Estou pronto para o agora. Quero estar. Respirando meu momento, que é a única coisa que tenho. No presente, tenho o passado e o futuro. Tudo junto. No agora. Saravá.

 

 

Amanhã vai fazer sol.

 

 

Preciso cortar as unhas dos pés.

 

 

Minha bicicleta está sem freio e com os pneus murchos.

 

Vou comprar um livro do Paul Auster num sebo.

 

 

Preciso comprar leite. Queijo. Coca. Amendoin. Guardanapo. Biscoito de gergelin. Goiaba. Manteiga. Chocolate. Arroz.

 

Amanhã meu telefone vai ser cortado. Se eu não te ligar mais, tente entender.

 

 

Tenho que administrar melhor meus ardores.

 

 

Gostaria de escrever uma poesia pra cada um.

 

 

Machuquei a mão jogando bola. O filha da puta não quis ir pro gol e eu fui. Me fodi. Porra.

 

 

Ontem fiquei dez minutos olhando pra uma rosa no ponto de ônibus. Perdi dois ônibus mas e daí?  

 

 

O toque dela nas minhas costas me faz sorrir.

 

 

Venta.

 

 

Um dia a areia branca meus pés irão pisar. Pois é. É inútil cantar o que perdi.

 

 

Dancei até o dia raiar sem me procupar com os risos. 

 

Se eu não te mandar mais emails, entenda, vão cortar meu telefone e com ele, vão levar a internet.

 

 

Mas dou um jeito. Sempre damos um jeito. Sempre. Sempre. Sempre. É incrível como sempre conseguimos dar um jeito. Somos demais. Todos nós. Todos. Todos.

 

 

Aluguei cinco DVD´s e só vi um. Do Godard.

 

 

 

Vou fazer uma performance misturando Nelson Rodrigues e Cazuza.

 

 

Quase espanquei um cara que deu um chute num gato na rua.

 

 

Meus sapatos estão todos gastos. Meus tênis todos rotos. Isso é bom sinal.

 

 

Por mim, te cantaria cinco músicas do Caetano seguidas no ouvido. Mas tenho que dormir. Me entenda. Que eu tento te entender. 

 

 



Escrito por viniciuspiedade às 00h34
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                         Eu queria ser ator

 

 

     Eu queria ser ator. E já me dizia ator. Mesmo que sem muita certeza. Mas efetivamente, não era ator. Talvez ator-mentado. Atormentado aindo sou. E serei. Atordoado. Mas, me dizia ator para os que perguntavam o que eu fazia. O problema é que eu era vendedor de filtro de água. Porta a porta. Grupo Europa. Eles diziam que não era filtro de água. O nome certo era purificador de água. Também diziam que não éramos simples vendedores. Éramos representantes oficiais da marca Europa. Mas diziam tanta coisa que nem te conto. Que roubada!

      

     Precisava de grana pra ajudar em casa. E peguei a primeira “oportunidade” que apareceu. Estava desempregado há algum tempo. E precisava fazer alguma coisa. Precisava de uma perspectiva concreta. E aceitei entrar na Europa, mesmo sabendo que era roubada. Eu precisava tentar. Precisava dizer pra minha mãe que estava trabalhando.

     Fui selecionado junto com todos que foram lá numa segunda-feira de manhã depois de um anúncio entusiasmante no jornal. Veja bem, todos que foram, todos, foram aprovados. Os que não voltaram foram os que desistiram. Na versão da Europa, foram os que eles não quiseram. Os dispensaram por telegrama. Conversa pra boi dormir.

 

     Fui de gravata. Uma gravata ridícula. Uma camisa social careta. E um cinto que nem sei onde arrumei. Meu sapato preto estava roto, e na falta de meia social, coloquei a mesma do futebol. O gel no cabelo formava um pequeno topete comum aos caras da minha idade na época e eu tinha um olhar entre triste e esperançoso. Muito triste. E muito esperançoso.

     A situação estava complicada. Como sempre. E eu tinha que fazer alguma coisa pra ajudar minha mãe. Qualquer coisa.

     Foi aí que fui “contratado”. Purificadores de água Europa. Na recepção tinha um aquário imenso com peixes de todas as cores e formas. Talvez simbolizasse a pureza da água. Lá eu tive uma semana de um treinamento que era na verdade uma lavagem cerebral. Os líderes da tal empresa de purificadores de água tinham cara de políticos corruptos. Na verdade, todo empresário bem sucedido tem essa cara. E na grande maioria, acabam sendo, de alguma forma, corruptos (sonegando impostos, explorando funcionários, subornando em licitações, etc).

     Enganaram-nos do começo ao fim. Nos enfiaram esperanças vãs goela abaixo. Nos fizeram acreditar que não éramos vendedores. E um mês depois, estava eu lá, batendo de porta em porta com um mostruário de filtros de água.

    

     Meu sapato roto ficou só o pó. A crise era grande. E o Fernando Henrique Cardoso ia na TV dizer que o país estava bem. Não sei de que país ele falava.

     Acordar de manhã pra fazer o que fazia era uma tortura iminente. Estava mais triste que nunca. E me equilibrava na tal esperança. Paradoxo ambulante. 

    

     Muitas portas batidas na minha cara depois, fui bater naquela porta, naquele dia de sol escaldante.

     O sol me doía a carne. Me ardia a garganta, me agredia a vista. Intensificava minha fome. E eu não almoçaria naquele dia. Eles só davam ticket refeição para os que vendiam pelo menos um filtro por dia. Tipo assim, você vendia hoje e tinha o direito de almoçar amanhã. Ontem eu não havia vendido. Hoje não almoçaria. Faziam dias que eu não vendia nada. Faziam dias que eu não almoçava. Café da manhã e jantar tinha que ser o suficiente. Tinha que ser, mesmo não sendo de fato.

     Será que eu faria uma venda hoje pra almoçar amanhã?

    

     Uma mulher de uns trinta e cinco anos, loira, abriu sorrindo dizendo “pois não?”.  

     Respirei fundo, busquei forças sei lá onde e disse que gostaria de falar das condições da água na nossa cidade. Ela quis escutar e eu achei estranho. Nas últimas quarenta e duas portas, não pude nem dizer do câncer que a água não filtrada poderia causar. Mas ela quis me escutar. Usando a técnica de vendas que aprendi nas reuniões com os engomados diretores (que consistia, simplesmente, em mentir), falei que precisava ir até uma torneira de sua casa pra mostrar o excesso de impureza. Ela me deixou entrar e seu marido me recebeu com um sorriso afetivo na cozinha. Disse a ele minha intenção e os dois me olharam com interesse e curiosidade. Um lindo casal. Uma casa arejada. Branca. Um feijão no fogão. Bananas na mesa. Imã de frutas na geladeira. Chão limpo. Louça secando no escorredor. Um filtro de barro. Um alívio sair daquele sol que me sufocava. Tomei um copo de suco de limão. O barulho da panela de pressão marcava meu ritmo interno. Os olhos vivos dos dois me faziam sentir-me vivo. Como se eu merecesse ser ouvido. Como se eu tivesse algo útil pra dizer. Parei de sentir aquela agonia de viver que sentia ultimamente. Como se a vida fosse uma tentativa de abrandar o sofrimento inerente ao existir. Um cinismo tão comum aos adultos.

     Sentei numa cadeira de frente pra eles, desinteressado em falar sobre água. Mas falei, como que só pra cativar mais ainda o interesse que eles tinham no que eu falava e no modo como falava. Sensacionalismo com as condições da água na cidade. Ratos, cães e crianças mortas nos reservatórios de água. Eles sorriram. Não estavam acreditando no meu papo, e pelo meu olhar, eu dizia que de fato não deviam acreditar. Era como se eu quisesse driblar escutas secretas dos diretores da Europa através dos olhos.

     O feijão ficou pronto. O arroz estava no microondas. O alface saiu lavado da geladeira e o frango assado do forno. E eu sorria de exibir gengivas. Eu almoçaria.

     Aquilo me trouxe uma alegria só comparada às grandes coisas vividas. Por fora, fingia naturalidade, fingia sorrir de piada dita, mas por dentro, eu encontrava um tipo de felicidade imediata só existente em substâncias químicas. Mas sem efeitos colaterais catastróficos. 

     Durante o almoço, tirei a gravata. E deixei de ser o vendedor de filtro que andava sendo nos últimos tempos. Voltei a ser Vinícius. Que não sabia o que era exatamente, mas sabia que não era aquele rapaz enforcado por gravata colorida.

     Perguntei deles. O que faziam. Ele era bailarino de um musical em cartaz na cidade. Convidou-me. Ela se dedicava no momento ao filho deles que estava na escola.

     Aí, com muito interesse, olhando nos meus olhos, como havia tempo ninguém olhava, perguntaram o que eu fazia, além de vender filtros.

     E eu disse imediatamente EU SOU ATOR, com uma convicção que eu nunca tivera antes. Como que acreditando naquilo. Com toda certeza do mundo. E eles sorriram de uma forma entusiasmante. Vibraram. E se disseram felizes por receber um ator para almoçar.

     Seriam ingênuos de acreditar que um vendedor de filtro de águas era ator?

     Vivemos num tempo de tanto cinismo, que aquilo era quase inconcebível, ao ponto de eu aqui me questionar se seria ingenuidade deles.

     Teria eu acreditado, daquela forma tão potencializadora, se um vendedor de filtros, agora, batesse em minha porta e se dissesse ator? Não sei. Sei que eles acreditaram em mim. E a partir da crença deles, eu mesmo passei a acreditar que eu era e seria ator de teatro. Mais do que nunca. Porque antes disso, por mais que desejasse isso, desconfiava da minha capacidade. Depois disso, não quis mais saber de capacidade. Quis saber de vontade e coragem de encarar a coisa toda.

 

     Isso aconteceu há muito tempo. Pelo menos pra mim. Dez anos. Dez anos é uma eternidade. Pra mim. E mesmo distante desse dia, lembro intensamente que foi a primeira vez que declarei oficialmente minha profissão, sem gaguejar, minha escolha de vida, sem titubear, meu rumo, meu foco, meu horizonte, mesmo estando longe de ser ator de fato.

     E ter sido aceito por aquele casal inesquecível, sem cinismo, com interesse imenso, me fez acreditar nisso de uma forma inabalável. Que nunca se abalou a partir desse dia.  Mesmo nos momentos mais difíceis que vieram. E que virão.

 

     Mas não sei, se isso seria inabalável, se essa minha escolha seria tão definitiva e infindável, se aqueles dois não tivessem acreditado em mim com tanta força e interesse. O encontro com esse casal foi mais importante pra mim do que o encontro com Denise Stoklos, por exemplo. Ou do encontro teatral com Antonio Abujamra.

     Esse encontro só é comparável à força do encontro que tenho com o público através das minhas peças, que me recebe sempre de uma forma única.

 

     Ano passado decidi voltar à casa deles para convidá-los para uma peça minha. E presenteá-los com meus livros. Lutei comigo mesmo pra lembrar o lugar. E lembrei mais ou menos. Não encontrei. Andei por umas duas horas, toquei em umas trinta portas e nada deles. Essa semana, novamente, vou procurá-los. Preciso olhá-los nos olhos e simplesmente agradecer o interesse com que acolheram um jovem vendedor de filtros de água em sua casa dez anos atrás. Pode ser que não se lembrem. Mas não importa.  

     O que importa nesse momento é que lembrando disso, quero esmagar no aqui-agora-já todo cinismo que há em mim.

    

    



Escrito por viniciuspiedade às 12h33
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                               Túmulo

 

 

 

 

    12H35min. Fazia sol. Nuvens exageradamente brancas passeavam de mãos dadas. Era uma quarta-feira. Eu vinha de uma gravação e tinha fome. Não havia almoçado.

     Passava ao lado do muro do cemitério que é caminho da minha casa e quando dei por mim já estava lá dentro, lendo o nome dos mortos e suas datas de nascimento e morte. Uma estrela simbolizando nascimento e uma cruz a morte. Achei bonito isso de uma estrela simbolizar o nascimento. Alguns túmulos tinham fotos. Fotos de quando eram vivos, mas todos com cara de mortos, tipo foto 3X4 de RG. Eram 12H35 quando olhei o relógio do celular. Cemitério da Lapa. Meu futuro lar. É o que digo pra minha irmã e minha irmã pra mim quando passamos por lá. É lá que nosso avô está enterrado. Também nossa avó. E o irmão da minha avó (como se chama o irmão da avó?).

     Um cara de macacão azul me olhou curioso e eu curioso perguntei onde ficava o túmulo de Alfredo Piedade. Ele deu risada. Tinham mais de dez mil pessoas enterradas lá. Bem mais. Quanto morto, eu disse rindo. Ele não riu. Perguntei como faria pra encontrar o túmulo. E ele riu. Disse que eu deveria rezar. Eu não ri. Resolvi falar com um outro cara que passava de macacão verde. Ele perguntou se eu sabia a data da morte. Eu sabia. Meu avô morreu dia dezenove de outubro de 1987. Dois dias antes do meu aniversário. Lembro de ter pensado em algum ano depois de sua morte que isso foi um presente de aniversário ao inverso. Eu tinha seis anos quando ele morreu. Faria sete dois dias depois.

    

     Estava na sala de aula quando fui chamado à secretaria. De novo. Acho que, como sempre, devo ter pensado “me ferrei novamente”, por minhas bagunças que começaram no maternal e só acabaram no terceiro colegial. Mas dessa vez o papo era outro. Chegando lá, vi que minha irmã me esperava. Ela é dois anos mais velha que eu. Talvez tenha me perguntado o que aprontei. Eu devo ter respondido cinicamente “nada”. Mas no fundo sabia que ela estava lá por minha culpa. Mesmo sem saber porque chamariam minha irmã mais velha pra levar bronca também por causa de bagunça minha. Foi quando minha mãe apareceu. Disse que iríamos embora mais cedo. Que alívio eu devo ter sentido ao constatar que não era eu o motivo do problema. Que alívio poder ir embora da escola mais cedo (e eu nunca suportei a escola, do maternal ao terceiro colegial). Não quis nem saber o motivo. Fui indo, acho que sorrindo.

     Chegando na porta da escola, minha mãe parou, se agachou e nos abraçou. Tinha mais alguém com ela. Alguém familiar que não me lembro quem era. Achei estranha essa demonstração de afeto repentina na porta da escola, sobretudo por causa do choro da minha mãe. Comecei a achar que existia algo de ruim no ar. Foi quando minha mãe lançou a granada. Vovô morreu.

    

     Minha irmã chorou na hora. Alto e escandalosamente como o evento merecia e exigia. Eu fiquei olhando tudo a minha volta sem saber o que aquilo significava de fato. Fiquei calado olhando-as chorar por muito tempo.

     Fui pra casa do meu tio e me alegrei ao ver meu primo. Me alegrei mais ainda quando ele me disse que provavelmente não precisaríamos ir na aula durante o resto da semana. As pessoas choravam e eu brincava com meu primo. Minha mãe chorava mais que todos. Num quarto escuro. Chorava, chorava e chorava. Diferentes intensidades de choro. Choros berrados e choros calados. Sentia gosto de lágrimas doces e lágrimas salgadas, quando beijava suas bochechas. Seu choro me incomodava, então, vez em quando eu ia lhe fazer uns carinhos, mas logo voltava a brincar com meu primo.

     Minha tia comprou pães de queijo. E fez leite batido com chocolate. Isso me causou uma alegria tão grande, que eu lembro com uma facilidade incrível. Tava tudo bem comigo. Eu só começava aos poucos a sentir falta do meu avô, que disseram que não voltaria mais, porém, acho que não acreditei.

     Meu avô não chegou a ser um pai, era um avô, mas era a figura masculina que eu tinha como referência, já que com meu pai nunca tive contato (minha mãe separou dele quando eu tinha dois meses e o expulsou de casa dizendo que ele não precisava mais voltar). Ela era pai-mãe. Meu avô era avô. Vovô.

     Acho que o último contato que tive com ele, foi uma ligação sua do hospital pra avisar que o Corinthians tinha ganhado o jogo por um a zero, gol do Biro-Biro. Comemorei. E nunca mais nos falamos.

    

     Na administração do cemitério, um homem gordo e suado pegou um livro imenso depois que lhe disse a data do falecimento. Colocou o livro imenso e empoeirado na mesa. Sorriu mal humorado. Parecia um filme noir.

     Enquanto ele procurava a data e nome, eu fiquei consultando a tabela de preços de um funeral completo. Me reprimi assustado com a minha atitude de me prevenir para um eventual problema do tipo. Não quero estar prevenido pra isso. O gordão me olhou e apontou a certidão de óbito. Li a certidão. Morreu do coração. E estava agora na Quadra 62 Túmulo 237.

 

     Perguntei para os homens de macacão azul onde ficava isso e eles me orientaram mais ou menos o lugar. Difícil. Família Lemos, Família Vieira Souto, Família Albertone, Família Almeida Carvalho. Será que estaria escrito Família Piedade? Acho que não. Pouco tempo antes eu havia escutado uma conversa do meu tio com minha mãe e ambos diziam não ir ao cemitério a mais de quinze anos. O túmulo estaria abandonado. Por isso, quando um senhor de macacão verde me viu vagando perdido como um morto vivo e disse que me levaria no local, fiquei um pouco constrangido. Fiquei imaginando a cara que faria quando visse o estado do túmulo. Vi um anjo sem cabeça num túmulo e pensei ser o dele. Não era.

     Enquanto andávamos pelo cemitério, fiquei lembrando de um choro convulsivo que tive andando pela Avenida Sumaré uns quatro anos antes lembrando do meu avô. Eu nunca tinha chorado de fato a dor da sua morte. Nesse dia, uns dezoito anos depois, chorei como se sua morte acabasse de me ser anunciada.

    

     Perguntei para o cara de macacão verde, qual era a diferença dos homens de macacão verde, dos homens de macacão azul. Ele parou, me olhou calmamente e respondeu, como se esclarecer aquilo fosse importante pra ele. Os homens de macacão verde como ele, eram jardineiros. Os homens de macacão azul, coveiros. Perguntei se ele já havia sido coveiro e ele categoricamente disse que não.

     ALFREDO PIEDADE. Tava lá o túmulo. Cheio de folhas caídas de uma árvore. Àrvore bonita, daquelas comuns em cemitérios. Lindas e fúnebres. Talvez fúnebres só por estarem plantadas naquele solo. Emilce Bernal Piedade. Vô e vó. E Eurípides, irmão da avó (como se chama a pessoa que é irmão da avó?).

     Sentei no túmulo e fiquei olhando pra árvore. Nem lembrei que tinha fome. Nem lembrei que tinha contas a pagar. Lá fora os ônibus freavam e os carros buzinavam. Essas referências sonoras me lembravam do fluxo da vida do lado de lá do muro. No céu, as nuvens se abraçaram escondendo o sol. Ia vir chuva.

     Fiquei lá sentado descansando a caminhada longa pra chegar ali. Como que me recompensando por ter atingido uma meta. Uma sina. ALFREDO. Vovô Alfredo.

     Um outro senhor passou por lá de macacão azul surrado e eu perguntei as horas. 14H05min. Perguntei se ele era coveiro mesmo já sabendo a resposta. Falei da chuva que ia vir e do trânsito insuportável que se intensificaria pós-chuva. Ele perguntou se eu tinha vindo visitar alguém e eu disse que estava em cima do túmulo do meu avô. Será que isso era desrespeito, sentar no túmulo. Tomara que não.

     Aí fiz a pergunta que mais ansiava. Quanto tempo ele trabalhava lá. Trinta anos, ele respondeu. Apertei sua mão feliz da vida

     Naquele momento, apertar a mão do cara que teoricamente enterrou meu avô, de alguma forma, era estar em contato com ele. Passei a tarde conversando com ele sobre qualquer coisa, coisa qualquer, banalidades da vida de vivos, sentado no túmulo de vovô Alfredo, esperando a chuva cair.     



Escrito por viniciuspiedade às 19h49
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                                 LAR DOCE LAR

 

 

     Eu estava no ponto de ônibus esperando o ônibus. Óbvio. Comecei mal o texto. O que mais eu estaria fazendo no ponto de ônibus? Tomando sol? Talvez, se fosse dia, mas era noite. E eu tinha pressa. E o ônibus não vinha. E eu escutava música. E batia o pé no chão. Os carros passavam em alta velocidade. O ponto ficava na saída da curva. Todo carro que vinha, metia o farol na minha cara. Minha vista ficava desfocada, embaçada, nebulosa e eu tinha medo de não ver o ônibus desfocado embaçado nebuloso. O jeito era não focar a saída da curva. Usar a audição pra identificar a vinda de um ônibus.

     Olhei do outro lado da rua e vi a casa marrom. Um carinho profundo por aquela casa me fez até esquecer minha pressa. Sempre que vejo essa casa me dá essa sensação gostosa. Casa grande, marrom. Toda marrom. Até o chão. Sempre que a olho me bate uma alegria. E a música que eu escutava era romântica, o que fazia com que esse carinho se intensificasse. De repente o cara apareceu. Pulou a corrente do estacionamento espaçoso e pisou no chão marrom. Eu desviei os olhos por ter escutado barulho de motor de ônibus e lembrei da minha pressa. Não era o meu. Que coisa, é só você ter pressa que o ônibus demora. Sempre assim. Pressa. Sinônimo de ser paulistano. Ter pressa. Todos têm pressa em sampa. Mesmo sem saber a razão. Acaba virando vício. Outro dia eu estava andando na Paulista com uma pressa desesperada. Bruscamente parei e me perguntei onde eu estava indo com tanta pressa. Aí lembrei que estava lá só pra andar. Mais nada. Sem compromisso. Diminuí a passada e passei a olhar os prédios, os carros, as moças. Mas foi só me distrair que voltei a andar rápido e ansioso. A cidade grande te deixa assim. Tudo é pra antes de ontem. E meu ônibus parecia implicar comigo.

     Voltei a olhar a casa marrom que recebia a visita do homem barbudo. Barba branca. Cabelo branco. E nenhuma pressa. Foi até um canto da casa, pegou uma vassoura e começou a varrer. Calmamente. Tinha lua no céu. Os carros passavam em alta velocidade como vultos. As motos flutuavam. E os aviões passavam antes da linha do horizonte. E ele varria a garagem da casa. Olhei-o com mais cuidado. Ele não era um morador da casa. Mas morava lá. O modo como varria denunciou isso. Quando terminou de varrer, abriu a torneira e encheu um caneco. Ao invés de beber, como eu esperava, regou as plantas que ficavam no canto oposto ao da torneira. Voltou à torneira e encheu novamente o caneco. Achei que dessa vez sim, fosse beber, mas não, regou mais um pouco o canteiro alegremente, como quem dá comida para seu cão faminto que late chorando. Mais uma vez encheu o caneco e quando achei que fosse regar novamente, bebeu. Com calma. Merecidamente. Dignamente. Como quem bebe água depois de longo dia de trabalho. Ele não morava na casa. Morava na porta da casa. Na garagem. Do lado de dentro da corrente que delimita a entrada do terreno da casa, mas do lado de fora da porta da casa. E fazia todo ritual que qualquer um faz ao chegar no seu habitat. Tirou os sapatos, as meias, o casaco surrado. Suspirou “ai ai”, suspiro que todos suspiram ao chegar em casa. Na falta da TV ligou o rádio e eu parei de escutar meu som pra escutar o dele. Músicas românticas como as minhas. Talvez um pouco mais exageradas nos arranjos, mas as letras pareciam ser as mesmas. Amores rejeitados. Rompidos. Traídos. Abandonados. Cantou um refrão em voz baixa, quase imperceptível, quase um bocejo, quase um pensamento e se alongou. Olhou a lua. Olhou os carros como quem olha pela janela o movimento lá embaixo. Acendeu cigarro e fumou calmamente olhando as pessoas voltando pras suas casas. Olhou a lua de novo e virou de costas, como quem fecha a janela. Arrumou sua cama que era composta de quatro pedaços de papelão e um cobertor velho e se deitou. Lar doce lar.

     Ele, um morador de rua. Um mendigo. 'Mendingo' como dizem outros. Pessoa em situação de rua é o termo do momento. E é o melhor. Lá era seu lugar de retorno depois dos dias de trabalho. Seu ninho, seu porto, sua casa.

     Os carros passavam gritando e os aviões pareciam fazer fila. Um ônibus passou cagando fumaça escura que eu senti mas nem olhei, talvez fosse o meu, mas foda-se.

     Isso aconteceu sexta passada e era noite quente. Mesmo assim ele se cobriu como que pra se esconder do frio de um ar-condicionado que ainda não gelou o ambiente. Abaixou o som, como se aquilo fosse reduzir também o barulho dos carros, motos, ônibus, caminhões que passavam na beira da sua cama fazendo barulho infernal. Usou sua mochila de travesseiro e fechou os olhos. Dormiu. Não se moveu mais. Parecia ter sono relâmpago. Talvez o cansaço de um dia de trabalho duro não deixasse forças, nem mesmo pra uma prece antes dos sonhos. Ou pesadelos. Catar latas cansa mais que tudo.

     O homem de barba e cabelos brancos na casa marrom me emocionou tanto que quis ficar um pouco mais olhando-o dormir.

     Compartilhei da sua entrega ao solo e relaxei na cadeira vermelha do ponto de ônibus, até que meu ônibus chegou e parou pra alguém descer. Aproveitei e subi num impulso que me surpreendeu. Corri até a janela e fiquei olhando até sumir na próxima curva o homem deitado dormindo na porta da casa que me causa alegria, a casa marrom onde eu nasci e morei até os três anos de idade.



Escrito por viniciuspiedade às 10h17
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