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Blog de viniciuspiedade
 


                                 LAR DOCE LAR

 

 

     Eu estava no ponto de ônibus esperando o ônibus. Óbvio. Comecei mal o texto. O que mais eu estaria fazendo no ponto de ônibus? Tomando sol? Talvez, se fosse dia, mas era noite. E eu tinha pressa. E o ônibus não vinha. E eu escutava música. E batia o pé no chão. Os carros passavam em alta velocidade. O ponto ficava na saída da curva. Todo carro que vinha, metia o farol na minha cara. Minha vista ficava desfocada, embaçada, nebulosa e eu tinha medo de não ver o ônibus desfocado embaçado nebuloso. O jeito era não focar a saída da curva. Usar a audição pra identificar a vinda de um ônibus.

     Olhei do outro lado da rua e vi a casa marrom. Um carinho profundo por aquela casa me fez até esquecer minha pressa. Sempre que vejo essa casa me dá essa sensação gostosa. Casa grande, marrom. Toda marrom. Até o chão. Sempre que a olho me bate uma alegria. E a música que eu escutava era romântica, o que fazia com que esse carinho se intensificasse. De repente o cara apareceu. Pulou a corrente do estacionamento espaçoso e pisou no chão marrom. Eu desviei os olhos por ter escutado barulho de motor de ônibus e lembrei da minha pressa. Não era o meu. Que coisa, é só você ter pressa que o ônibus demora. Sempre assim. Pressa. Sinônimo de ser paulistano. Ter pressa. Todos têm pressa em sampa. Mesmo sem saber a razão. Acaba virando vício. Outro dia eu estava andando na Paulista com uma pressa desesperada. Bruscamente parei e me perguntei onde eu estava indo com tanta pressa. Aí lembrei que estava lá só pra andar. Mais nada. Sem compromisso. Diminuí a passada e passei a olhar os prédios, os carros, as moças. Mas foi só me distrair que voltei a andar rápido e ansioso. A cidade grande te deixa assim. Tudo é pra antes de ontem. E meu ônibus parecia implicar comigo.

     Voltei a olhar a casa marrom que recebia a visita do homem barbudo. Barba branca. Cabelo branco. E nenhuma pressa. Foi até um canto da casa, pegou uma vassoura e começou a varrer. Calmamente. Tinha lua no céu. Os carros passavam em alta velocidade como vultos. As motos flutuavam. E os aviões passavam antes da linha do horizonte. E ele varria a garagem da casa. Olhei-o com mais cuidado. Ele não era um morador da casa. Mas morava lá. O modo como varria denunciou isso. Quando terminou de varrer, abriu a torneira e encheu um caneco. Ao invés de beber, como eu esperava, regou as plantas que ficavam no canto oposto ao da torneira. Voltou à torneira e encheu novamente o caneco. Achei que dessa vez sim, fosse beber, mas não, regou mais um pouco o canteiro alegremente, como quem dá comida para seu cão faminto que late chorando. Mais uma vez encheu o caneco e quando achei que fosse regar novamente, bebeu. Com calma. Merecidamente. Dignamente. Como quem bebe água depois de longo dia de trabalho. Ele não morava na casa. Morava na porta da casa. Na garagem. Do lado de dentro da corrente que delimita a entrada do terreno da casa, mas do lado de fora da porta da casa. E fazia todo ritual que qualquer um faz ao chegar no seu habitat. Tirou os sapatos, as meias, o casaco surrado. Suspirou “ai ai”, suspiro que todos suspiram ao chegar em casa. Na falta da TV ligou o rádio e eu parei de escutar meu som pra escutar o dele. Músicas românticas como as minhas. Talvez um pouco mais exageradas nos arranjos, mas as letras pareciam ser as mesmas. Amores rejeitados. Rompidos. Traídos. Abandonados. Cantou um refrão em voz baixa, quase imperceptível, quase um bocejo, quase um pensamento e se alongou. Olhou a lua. Olhou os carros como quem olha pela janela o movimento lá embaixo. Acendeu cigarro e fumou calmamente olhando as pessoas voltando pras suas casas. Olhou a lua de novo e virou de costas, como quem fecha a janela. Arrumou sua cama que era composta de quatro pedaços de papelão e um cobertor velho e se deitou. Lar doce lar.

     Ele, um morador de rua. Um mendigo. 'Mendingo' como dizem outros. Pessoa em situação de rua é o termo do momento. E é o melhor. Lá era seu lugar de retorno depois dos dias de trabalho. Seu ninho, seu porto, sua casa.

     Os carros passavam gritando e os aviões pareciam fazer fila. Um ônibus passou cagando fumaça escura que eu senti mas nem olhei, talvez fosse o meu, mas foda-se.

     Isso aconteceu sexta passada e era noite quente. Mesmo assim ele se cobriu como que pra se esconder do frio de um ar-condicionado que ainda não gelou o ambiente. Abaixou o som, como se aquilo fosse reduzir também o barulho dos carros, motos, ônibus, caminhões que passavam na beira da sua cama fazendo barulho infernal. Usou sua mochila de travesseiro e fechou os olhos. Dormiu. Não se moveu mais. Parecia ter sono relâmpago. Talvez o cansaço de um dia de trabalho duro não deixasse forças, nem mesmo pra uma prece antes dos sonhos. Ou pesadelos. Catar latas cansa mais que tudo.

     O homem de barba e cabelos brancos na casa marrom me emocionou tanto que quis ficar um pouco mais olhando-o dormir.

     Compartilhei da sua entrega ao solo e relaxei na cadeira vermelha do ponto de ônibus, até que meu ônibus chegou e parou pra alguém descer. Aproveitei e subi num impulso que me surpreendeu. Corri até a janela e fiquei olhando até sumir na próxima curva o homem deitado dormindo na porta da casa que me causa alegria, a casa marrom onde eu nasci e morei até os três anos de idade.



Escrito por viniciuspiedade às 10h17
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