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Blog de viniciuspiedade
 


 

 

                               Túmulo

 

 

 

 

    12H35min. Fazia sol. Nuvens exageradamente brancas passeavam de mãos dadas. Era uma quarta-feira. Eu vinha de uma gravação e tinha fome. Não havia almoçado.

     Passava ao lado do muro do cemitério que é caminho da minha casa e quando dei por mim já estava lá dentro, lendo o nome dos mortos e suas datas de nascimento e morte. Uma estrela simbolizando nascimento e uma cruz a morte. Achei bonito isso de uma estrela simbolizar o nascimento. Alguns túmulos tinham fotos. Fotos de quando eram vivos, mas todos com cara de mortos, tipo foto 3X4 de RG. Eram 12H35 quando olhei o relógio do celular. Cemitério da Lapa. Meu futuro lar. É o que digo pra minha irmã e minha irmã pra mim quando passamos por lá. É lá que nosso avô está enterrado. Também nossa avó. E o irmão da minha avó (como se chama o irmão da avó?).

     Um cara de macacão azul me olhou curioso e eu curioso perguntei onde ficava o túmulo de Alfredo Piedade. Ele deu risada. Tinham mais de dez mil pessoas enterradas lá. Bem mais. Quanto morto, eu disse rindo. Ele não riu. Perguntei como faria pra encontrar o túmulo. E ele riu. Disse que eu deveria rezar. Eu não ri. Resolvi falar com um outro cara que passava de macacão verde. Ele perguntou se eu sabia a data da morte. Eu sabia. Meu avô morreu dia dezenove de outubro de 1987. Dois dias antes do meu aniversário. Lembro de ter pensado em algum ano depois de sua morte que isso foi um presente de aniversário ao inverso. Eu tinha seis anos quando ele morreu. Faria sete dois dias depois.

    

     Estava na sala de aula quando fui chamado à secretaria. De novo. Acho que, como sempre, devo ter pensado “me ferrei novamente”, por minhas bagunças que começaram no maternal e só acabaram no terceiro colegial. Mas dessa vez o papo era outro. Chegando lá, vi que minha irmã me esperava. Ela é dois anos mais velha que eu. Talvez tenha me perguntado o que aprontei. Eu devo ter respondido cinicamente “nada”. Mas no fundo sabia que ela estava lá por minha culpa. Mesmo sem saber porque chamariam minha irmã mais velha pra levar bronca também por causa de bagunça minha. Foi quando minha mãe apareceu. Disse que iríamos embora mais cedo. Que alívio eu devo ter sentido ao constatar que não era eu o motivo do problema. Que alívio poder ir embora da escola mais cedo (e eu nunca suportei a escola, do maternal ao terceiro colegial). Não quis nem saber o motivo. Fui indo, acho que sorrindo.

     Chegando na porta da escola, minha mãe parou, se agachou e nos abraçou. Tinha mais alguém com ela. Alguém familiar que não me lembro quem era. Achei estranha essa demonstração de afeto repentina na porta da escola, sobretudo por causa do choro da minha mãe. Comecei a achar que existia algo de ruim no ar. Foi quando minha mãe lançou a granada. Vovô morreu.

    

     Minha irmã chorou na hora. Alto e escandalosamente como o evento merecia e exigia. Eu fiquei olhando tudo a minha volta sem saber o que aquilo significava de fato. Fiquei calado olhando-as chorar por muito tempo.

     Fui pra casa do meu tio e me alegrei ao ver meu primo. Me alegrei mais ainda quando ele me disse que provavelmente não precisaríamos ir na aula durante o resto da semana. As pessoas choravam e eu brincava com meu primo. Minha mãe chorava mais que todos. Num quarto escuro. Chorava, chorava e chorava. Diferentes intensidades de choro. Choros berrados e choros calados. Sentia gosto de lágrimas doces e lágrimas salgadas, quando beijava suas bochechas. Seu choro me incomodava, então, vez em quando eu ia lhe fazer uns carinhos, mas logo voltava a brincar com meu primo.

     Minha tia comprou pães de queijo. E fez leite batido com chocolate. Isso me causou uma alegria tão grande, que eu lembro com uma facilidade incrível. Tava tudo bem comigo. Eu só começava aos poucos a sentir falta do meu avô, que disseram que não voltaria mais, porém, acho que não acreditei.

     Meu avô não chegou a ser um pai, era um avô, mas era a figura masculina que eu tinha como referência, já que com meu pai nunca tive contato (minha mãe separou dele quando eu tinha dois meses e o expulsou de casa dizendo que ele não precisava mais voltar). Ela era pai-mãe. Meu avô era avô. Vovô.

     Acho que o último contato que tive com ele, foi uma ligação sua do hospital pra avisar que o Corinthians tinha ganhado o jogo por um a zero, gol do Biro-Biro. Comemorei. E nunca mais nos falamos.

    

     Na administração do cemitério, um homem gordo e suado pegou um livro imenso depois que lhe disse a data do falecimento. Colocou o livro imenso e empoeirado na mesa. Sorriu mal humorado. Parecia um filme noir.

     Enquanto ele procurava a data e nome, eu fiquei consultando a tabela de preços de um funeral completo. Me reprimi assustado com a minha atitude de me prevenir para um eventual problema do tipo. Não quero estar prevenido pra isso. O gordão me olhou e apontou a certidão de óbito. Li a certidão. Morreu do coração. E estava agora na Quadra 62 Túmulo 237.

 

     Perguntei para os homens de macacão azul onde ficava isso e eles me orientaram mais ou menos o lugar. Difícil. Família Lemos, Família Vieira Souto, Família Albertone, Família Almeida Carvalho. Será que estaria escrito Família Piedade? Acho que não. Pouco tempo antes eu havia escutado uma conversa do meu tio com minha mãe e ambos diziam não ir ao cemitério a mais de quinze anos. O túmulo estaria abandonado. Por isso, quando um senhor de macacão verde me viu vagando perdido como um morto vivo e disse que me levaria no local, fiquei um pouco constrangido. Fiquei imaginando a cara que faria quando visse o estado do túmulo. Vi um anjo sem cabeça num túmulo e pensei ser o dele. Não era.

     Enquanto andávamos pelo cemitério, fiquei lembrando de um choro convulsivo que tive andando pela Avenida Sumaré uns quatro anos antes lembrando do meu avô. Eu nunca tinha chorado de fato a dor da sua morte. Nesse dia, uns dezoito anos depois, chorei como se sua morte acabasse de me ser anunciada.

    

     Perguntei para o cara de macacão verde, qual era a diferença dos homens de macacão verde, dos homens de macacão azul. Ele parou, me olhou calmamente e respondeu, como se esclarecer aquilo fosse importante pra ele. Os homens de macacão verde como ele, eram jardineiros. Os homens de macacão azul, coveiros. Perguntei se ele já havia sido coveiro e ele categoricamente disse que não.

     ALFREDO PIEDADE. Tava lá o túmulo. Cheio de folhas caídas de uma árvore. Àrvore bonita, daquelas comuns em cemitérios. Lindas e fúnebres. Talvez fúnebres só por estarem plantadas naquele solo. Emilce Bernal Piedade. Vô e vó. E Eurípides, irmão da avó (como se chama a pessoa que é irmão da avó?).

     Sentei no túmulo e fiquei olhando pra árvore. Nem lembrei que tinha fome. Nem lembrei que tinha contas a pagar. Lá fora os ônibus freavam e os carros buzinavam. Essas referências sonoras me lembravam do fluxo da vida do lado de lá do muro. No céu, as nuvens se abraçaram escondendo o sol. Ia vir chuva.

     Fiquei lá sentado descansando a caminhada longa pra chegar ali. Como que me recompensando por ter atingido uma meta. Uma sina. ALFREDO. Vovô Alfredo.

     Um outro senhor passou por lá de macacão azul surrado e eu perguntei as horas. 14H05min. Perguntei se ele era coveiro mesmo já sabendo a resposta. Falei da chuva que ia vir e do trânsito insuportável que se intensificaria pós-chuva. Ele perguntou se eu tinha vindo visitar alguém e eu disse que estava em cima do túmulo do meu avô. Será que isso era desrespeito, sentar no túmulo. Tomara que não.

     Aí fiz a pergunta que mais ansiava. Quanto tempo ele trabalhava lá. Trinta anos, ele respondeu. Apertei sua mão feliz da vida

     Naquele momento, apertar a mão do cara que teoricamente enterrou meu avô, de alguma forma, era estar em contato com ele. Passei a tarde conversando com ele sobre qualquer coisa, coisa qualquer, banalidades da vida de vivos, sentado no túmulo de vovô Alfredo, esperando a chuva cair.     



Escrito por viniciuspiedade às 19h49
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