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Blog de viniciuspiedade
 


                         Eu queria ser ator

 

 

     Eu queria ser ator. E já me dizia ator. Mesmo que sem muita certeza. Mas efetivamente, não era ator. Talvez ator-mentado. Atormentado aindo sou. E serei. Atordoado. Mas, me dizia ator para os que perguntavam o que eu fazia. O problema é que eu era vendedor de filtro de água. Porta a porta. Grupo Europa. Eles diziam que não era filtro de água. O nome certo era purificador de água. Também diziam que não éramos simples vendedores. Éramos representantes oficiais da marca Europa. Mas diziam tanta coisa que nem te conto. Que roubada!

      

     Precisava de grana pra ajudar em casa. E peguei a primeira “oportunidade” que apareceu. Estava desempregado há algum tempo. E precisava fazer alguma coisa. Precisava de uma perspectiva concreta. E aceitei entrar na Europa, mesmo sabendo que era roubada. Eu precisava tentar. Precisava dizer pra minha mãe que estava trabalhando.

     Fui selecionado junto com todos que foram lá numa segunda-feira de manhã depois de um anúncio entusiasmante no jornal. Veja bem, todos que foram, todos, foram aprovados. Os que não voltaram foram os que desistiram. Na versão da Europa, foram os que eles não quiseram. Os dispensaram por telegrama. Conversa pra boi dormir.

 

     Fui de gravata. Uma gravata ridícula. Uma camisa social careta. E um cinto que nem sei onde arrumei. Meu sapato preto estava roto, e na falta de meia social, coloquei a mesma do futebol. O gel no cabelo formava um pequeno topete comum aos caras da minha idade na época e eu tinha um olhar entre triste e esperançoso. Muito triste. E muito esperançoso.

     A situação estava complicada. Como sempre. E eu tinha que fazer alguma coisa pra ajudar minha mãe. Qualquer coisa.

     Foi aí que fui “contratado”. Purificadores de água Europa. Na recepção tinha um aquário imenso com peixes de todas as cores e formas. Talvez simbolizasse a pureza da água. Lá eu tive uma semana de um treinamento que era na verdade uma lavagem cerebral. Os líderes da tal empresa de purificadores de água tinham cara de políticos corruptos. Na verdade, todo empresário bem sucedido tem essa cara. E na grande maioria, acabam sendo, de alguma forma, corruptos (sonegando impostos, explorando funcionários, subornando em licitações, etc).

     Enganaram-nos do começo ao fim. Nos enfiaram esperanças vãs goela abaixo. Nos fizeram acreditar que não éramos vendedores. E um mês depois, estava eu lá, batendo de porta em porta com um mostruário de filtros de água.

    

     Meu sapato roto ficou só o pó. A crise era grande. E o Fernando Henrique Cardoso ia na TV dizer que o país estava bem. Não sei de que país ele falava.

     Acordar de manhã pra fazer o que fazia era uma tortura iminente. Estava mais triste que nunca. E me equilibrava na tal esperança. Paradoxo ambulante. 

    

     Muitas portas batidas na minha cara depois, fui bater naquela porta, naquele dia de sol escaldante.

     O sol me doía a carne. Me ardia a garganta, me agredia a vista. Intensificava minha fome. E eu não almoçaria naquele dia. Eles só davam ticket refeição para os que vendiam pelo menos um filtro por dia. Tipo assim, você vendia hoje e tinha o direito de almoçar amanhã. Ontem eu não havia vendido. Hoje não almoçaria. Faziam dias que eu não vendia nada. Faziam dias que eu não almoçava. Café da manhã e jantar tinha que ser o suficiente. Tinha que ser, mesmo não sendo de fato.

     Será que eu faria uma venda hoje pra almoçar amanhã?

    

     Uma mulher de uns trinta e cinco anos, loira, abriu sorrindo dizendo “pois não?”.  

     Respirei fundo, busquei forças sei lá onde e disse que gostaria de falar das condições da água na nossa cidade. Ela quis escutar e eu achei estranho. Nas últimas quarenta e duas portas, não pude nem dizer do câncer que a água não filtrada poderia causar. Mas ela quis me escutar. Usando a técnica de vendas que aprendi nas reuniões com os engomados diretores (que consistia, simplesmente, em mentir), falei que precisava ir até uma torneira de sua casa pra mostrar o excesso de impureza. Ela me deixou entrar e seu marido me recebeu com um sorriso afetivo na cozinha. Disse a ele minha intenção e os dois me olharam com interesse e curiosidade. Um lindo casal. Uma casa arejada. Branca. Um feijão no fogão. Bananas na mesa. Imã de frutas na geladeira. Chão limpo. Louça secando no escorredor. Um filtro de barro. Um alívio sair daquele sol que me sufocava. Tomei um copo de suco de limão. O barulho da panela de pressão marcava meu ritmo interno. Os olhos vivos dos dois me faziam sentir-me vivo. Como se eu merecesse ser ouvido. Como se eu tivesse algo útil pra dizer. Parei de sentir aquela agonia de viver que sentia ultimamente. Como se a vida fosse uma tentativa de abrandar o sofrimento inerente ao existir. Um cinismo tão comum aos adultos.

     Sentei numa cadeira de frente pra eles, desinteressado em falar sobre água. Mas falei, como que só pra cativar mais ainda o interesse que eles tinham no que eu falava e no modo como falava. Sensacionalismo com as condições da água na cidade. Ratos, cães e crianças mortas nos reservatórios de água. Eles sorriram. Não estavam acreditando no meu papo, e pelo meu olhar, eu dizia que de fato não deviam acreditar. Era como se eu quisesse driblar escutas secretas dos diretores da Europa através dos olhos.

     O feijão ficou pronto. O arroz estava no microondas. O alface saiu lavado da geladeira e o frango assado do forno. E eu sorria de exibir gengivas. Eu almoçaria.

     Aquilo me trouxe uma alegria só comparada às grandes coisas vividas. Por fora, fingia naturalidade, fingia sorrir de piada dita, mas por dentro, eu encontrava um tipo de felicidade imediata só existente em substâncias químicas. Mas sem efeitos colaterais catastróficos. 

     Durante o almoço, tirei a gravata. E deixei de ser o vendedor de filtro que andava sendo nos últimos tempos. Voltei a ser Vinícius. Que não sabia o que era exatamente, mas sabia que não era aquele rapaz enforcado por gravata colorida.

     Perguntei deles. O que faziam. Ele era bailarino de um musical em cartaz na cidade. Convidou-me. Ela se dedicava no momento ao filho deles que estava na escola.

     Aí, com muito interesse, olhando nos meus olhos, como havia tempo ninguém olhava, perguntaram o que eu fazia, além de vender filtros.

     E eu disse imediatamente EU SOU ATOR, com uma convicção que eu nunca tivera antes. Como que acreditando naquilo. Com toda certeza do mundo. E eles sorriram de uma forma entusiasmante. Vibraram. E se disseram felizes por receber um ator para almoçar.

     Seriam ingênuos de acreditar que um vendedor de filtro de águas era ator?

     Vivemos num tempo de tanto cinismo, que aquilo era quase inconcebível, ao ponto de eu aqui me questionar se seria ingenuidade deles.

     Teria eu acreditado, daquela forma tão potencializadora, se um vendedor de filtros, agora, batesse em minha porta e se dissesse ator? Não sei. Sei que eles acreditaram em mim. E a partir da crença deles, eu mesmo passei a acreditar que eu era e seria ator de teatro. Mais do que nunca. Porque antes disso, por mais que desejasse isso, desconfiava da minha capacidade. Depois disso, não quis mais saber de capacidade. Quis saber de vontade e coragem de encarar a coisa toda.

 

     Isso aconteceu há muito tempo. Pelo menos pra mim. Dez anos. Dez anos é uma eternidade. Pra mim. E mesmo distante desse dia, lembro intensamente que foi a primeira vez que declarei oficialmente minha profissão, sem gaguejar, minha escolha de vida, sem titubear, meu rumo, meu foco, meu horizonte, mesmo estando longe de ser ator de fato.

     E ter sido aceito por aquele casal inesquecível, sem cinismo, com interesse imenso, me fez acreditar nisso de uma forma inabalável. Que nunca se abalou a partir desse dia.  Mesmo nos momentos mais difíceis que vieram. E que virão.

 

     Mas não sei, se isso seria inabalável, se essa minha escolha seria tão definitiva e infindável, se aqueles dois não tivessem acreditado em mim com tanta força e interesse. O encontro com esse casal foi mais importante pra mim do que o encontro com Denise Stoklos, por exemplo. Ou do encontro teatral com Antonio Abujamra.

     Esse encontro só é comparável à força do encontro que tenho com o público através das minhas peças, que me recebe sempre de uma forma única.

 

     Ano passado decidi voltar à casa deles para convidá-los para uma peça minha. E presenteá-los com meus livros. Lutei comigo mesmo pra lembrar o lugar. E lembrei mais ou menos. Não encontrei. Andei por umas duas horas, toquei em umas trinta portas e nada deles. Essa semana, novamente, vou procurá-los. Preciso olhá-los nos olhos e simplesmente agradecer o interesse com que acolheram um jovem vendedor de filtros de água em sua casa dez anos atrás. Pode ser que não se lembrem. Mas não importa.  

     O que importa nesse momento é que lembrando disso, quero esmagar no aqui-agora-já todo cinismo que há em mim.

    

    



Escrito por viniciuspiedade às 12h33
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