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Blog de viniciuspiedade
 


 

 

 

Estava dormindo e o barulho da chuva na minha janela me acordou. Pensei em dormir com essa trilha deliciosa de fundo, mas junto com o barulho veio o cheiro da chuva que me fez querer levantar e andar pelas ruas da cidade. Levantei. Coloquei calça jeans e casaco. Esqueci o celular, a carteira e o guarda-chuva. Claro. Andei até o joelho doer e cheguei agora. Talvez pegue uma gripe. Estou encharcado. E com uma sensação que gostaria que permanecesse em mim até o fim dos meus dias.

 

Ontem eu fiz uma performance num show e babei intensamente no palco.

 

 

Vendo a ênfase dos comentaristas de futebol nas suas opiniões na televisão, fiquei me perguntando o que eles achavam sobre as outras coisas do mundo não futebolísticas.

 

Quando vejo jovens comediantes nas suas comédias stand-ups, dou risadas e fico agoniado ao mesmo tempo. Dou risada porque acho engraçado e fico agoniado com seus desesperos de fazer rir CUSTE O QUE QUE CUSTAR.  

 

 

O Al Gore, ex-vice-presidente-dos-Estados-Unidos-da-América e candidato a presidente derrotado por George W. Bush no primeiro mandato do idiota, aparece para o mundo inteiro como um homem absolutamente preocupado com o aquecimento global. Ele é o narrador daquele documentário que “chocou” o mundo sobre a possibilidade do apocalipse devido ao aquecimento chamado AN INCOVENIENT TRUTH (Uma verdade inconveniente). Mas, o fato é que a verdade mais inconveniente pesa para o próprio Al Gore. Ele foi vice-presidente americano durante toda a administração Clinton (de 1993 até 2001), e não fez nada realmente importante pelo tema. Al Gore recebeu o prêmio Nobel da paz em 2007, junto com o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU, "pelos seus esforços na construção e disseminação de maior conhecimento sobre as alterações climáticas induzidas pelo homem e por lançar as bases necessárias para inverter tais alterações". Recebeu ainda o Prêmio Príncipe de Asturias de la Concordia de 2007, galardão concedido pela Fundación Príncipe de Asturias, na cidade de Oviedo (Espanha). Por essas e outras que eu desprezo qualquer tipo de premiação. Pra mim, não significam nada fora dos esportes. Al Gore e sua falácia toda, é o símbolo de uma coisa tão comum nos dias de hoje. Essa coisa das empresas, bancos, supermercados e todos mais se dizerem preocupados com questões ambientais ou sociais, são da boca pra fora. Esse tipo de ação não combina com o capitalismo e esses imbecis sabem muito bem disso. Simplesmente se adaptam ao que está em voga no momento. Se as ações da moda fossem exatamente opostas a essas de hoje, estariam defendendo-as com o mesmo interesse fajuto e “dignidade” pré-fabricada com que “defendem” essas causas urgentes do momento.

 

Milton Santos. Tenho lido coisas do geógrafo Milton Santos que me deixam absolutamente impressionado. Ele tenta entender o Brasil e sua precariedade, através da ocupação do seu território. O modo como esse território é ocupado. É fundamental. Nunca me interessei por geografia na escola. Nem por história. Nem por merda nenhuma. Capitanias Hereditárias não significava nada pra mim. Nem cana-de-açucar. Nem política café-com-leite. Eu decorava aquela baboseira toda pra escrever na prova, mas sem querer entender o que aquilo siginificava de fato. Ou, sem entender que aquele processo todo resultava nessa merda vigente no Brasil de hoje. No mundo de hoje. Os professores ou o sistema educacional não tinham capacidade de me fazer entender do que aquilo se tratava. Eu e os outros de todas as salas de aula em que estudei.  Pedro Alvares Cabral. Latitude e longitude. Verbo to be. Fração. Raiz quadrada. Paroxítona. H2o. Eu era só mais um engolindo as matérias pra vomitar nas provas. Tirar um C era o suficiente. E tirava. Mas garanto que os que tiravam A não sabiam realmente mais do que os caras que tiravam D. Os que tiravam A, no máximo, decoravam melhor. Mas o tempo passou e por uma série de encontros e desencontros, passo a me interessar por geografia. Entendo que através disso, entendo-me no espaço tempo presente. Espero que a galera que tirava nota A também tenha esses encontros, tal como a galera que tirava nota D. É a partir daí que algo realmente acontece. Ao contrário da decoração tola dos meus tempos de escola. E viva os Paulos Freires do mundo que entendem que educação é mais do que definir o mundo com nomes e fórmulas.

 

Andei olhando os blog logs das celebridades. Achei incrível como a galera consegue falar e falar e falar e não falar merda nenhuma. Incrível como tem gente que se interessa por nada. Alguns blog logs tinham sete mil comentários. É incrível como a fama é sedutora. Vivemos a cultura das celebridades. O culto ao nada. A pessoa fica conhecida e passa a ser cultuada por... ser conhecida. E tudo que ela faz ou diz, julgam interessante, profundo e bom. Engraçado e divertido. E o pior é que os “artistas” acreditam nisso. Recebem o beijo do vampiro. Acreditam na própria importância... sem saber que o pra sempre, sempre acaba. Mas nada vai conseguir mudar o que ficou. E o que ficou? Nada.

Mesmo assim, depois de ler tantas palavras dizendo nada, brindo os nossos tempos em que todos e qualquer um podem ter blog. É a coisa mais democrática depois do teatro. Qualquer um pode fazer e ter. Mesmo que pra não dizer nada. Um brinde a isso.

 

Um brinde também ao nada que estou dizendo. O que digo também é um nada. Mas é um nada berrado. Eu tô berrando... tô babando... tô suando... e tô molhado... acabei de pegar chuva e liguei um Radiohead alto que é a coisa mais impressionante que conheço. São os artistas mais importantes do mundo. Pelo menos pro Vini. Junto com Lars von Trier. Eles não são reféns do seu público. Não ficam gritando palavras de ordem que seu público quer ouvir e criam suas obras sem medo de desagradar. E mesmo assim agradam. Tocam. Transformam. Tudo o que fizeram e fazem. E farão. Eles sim são importantes e dizem em atitude e sonoridade seus excessos e faltas. Cantam nossas vidas com suas contradições.

 

Esses dias eu me dei conta da minha insignificância. Fiquei feliz. Caiu aquela máscara de importância que quase todo artista tem. Como se sua obra fosse fundamental para a humanidade. Isso me trouxe uma leveza única. E fez com que eu me sentisse único. Aí sim passei a ser realmente importante. Por ser único. Eis o paradoxo. Nao tenho nenhuma importância e tenho plena consciência disso. Nenhuma. Zero. E ao não ter importância, liberto-me de pré-jugamentos  e limites e passo a ser único. E sentir-me único me faz sentir-me importante... mesmo sem ter importância nenhuma... entende?

 

Estava lembrando esses dias da época em que estava escrevendo meu livro TRABALHADORES DE DOMINGO. É um livro sobre profissões. Cada conto tem uma abordagem diferente sobre uma profissão. Estava lembrando justamente da época em que eu o escrevia e da paranóia que fiquei. Eu ficava estudando as profissões. Do meu jeito. Pegando táxi só pra conversar ou observar um taxista com outros olhos, não como passageiro indo pra um lugar X. Virando garçom. Animando festa de criança. Procurando apartamento só pra conversar com corretor de imóvel. Entrando em lojas de shopping para observar vendedores, gerentes, estoquistas. Nunca dizendo minhas intenções literárias. Sempre me colocando nos contextos. Sendo outra pessoa. Sendo o cara interessado na rifa pra ganhar o ursão. Conversando com prostituta, porteiro, empresário, maratonista. Piloto de avião. Garagista. Panfleteiro, advogada, engenheiro mecatrônico. Segurança, enfermeira, faxineiro. Engenheiro civil. Arquiteta. Paisagista. Homem-placa. Vendedor de limão, de trufa,  de seguro, de maconha, de biscoito no farol. Equilibrista, manobrista, palhaço. Professor, ladrão, turismóloga. Recepcionista. Bailarina. Executivo. Atriz. Dentista. Modelo. Meu senso de observação chegava a ser exagerado. Se estivesse contigo num bar, meus olhos estariam voltados pra menina vendendo flores, para o carinha do amendoim, para o cumim, para o gerente, para alguém falando do seu dia de trabalho. E se estivesse te olhando, estaria falando sobre sua vida, baseada na sua profissão.

 

 A chuva parou lá fora. Mas continua aqui, na minha pele molhada, na minha calça úmida, na minha meia encharcada.

 

Agora já posso dormir com a sensação de que a vida aconteceu mais intensamente. Preciso sentir isso. Ontem, andando num shopping e olhando aquela vida pasteurizada à minha volta, senti que precisava diariamente me perguntar se eu estava virando mais um consumidor. Como diz Milton Santos, as pessoas agora não são mais cidadãs. São consumidoras. Eu não quero ser consumidor. Não quero ser como um ratinho de labratório. Quero me surpreender. Custe o que custar. Não quero ter que fazer rir. Custe o que custar. Quero o inesperado. Devir.

 

Uma última coisa. Uma coisa importante. Muito importante. Agora eu sou padrinho de um rapazinho chamado Pedro. Isso me trouxe algo único. Quando aceitei ser padrinho de Pedro, não sabia que no dia seguinte ao convite eu acordaria diferente. Como que querendo ser um cara legal... um cara que faz coisas legais... um cara legal para o molequinho falar para os amiguinhos do seu padrinho... Já amava o molequinho, mas esse amor se potencializou com a possibilidade de um contato de vida e pra vida. Ainda estou absorvendo isso, mas o que posso dizer é que viver já era bão demais e com isso, ficou melhor ainda.

 

 



Escrito por viniciuspiedade às 03h33
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