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Blog de viniciuspiedade
 


   DIÁRIO DE BORDO

 

ESSA SEMANA VOLTO A COLOCAR O BARCO PIRATA NO MAR. DEPOIS DE ALGUNS MESES SEM FAZER O GRITO PIRATA REVERBERAR, O GRITO VOLTA A ECOAR, ANTES DE DAR CONTINUIDADE A TURNÊ DA NOVA PEÇA H.E.R.Ó.I.S. QUE VAI APORTAR EM VITÓRIA SEMANA QUE VÊM. O PIRATA ACONTECE EM SAMPA. 

AÍ, LEMBREI DE UM LIVRO QUE IA ESCREVER CHAMADO DIÁRIO DE BORDO DE UM PIRATA, CONTANDO SOBRE HISTÓRIAS VIVIDAS NA TRAJETÓRIA DE 5 ANOS DA PEÇA.

Talvez ainda escreva esse livro. Mas o que faço agora é, simplesmente, deixar a mente passear e lembrar coisas vividas por aí com a peça...

 

* Era uma apresentação para a juventude do MST e eles tinham trabalhado o dia inteiro. Teria a peça e depois o jantar. Batatas. Assadas, purê e fritas. Batatas. Que estavam sendo feitas ao fundo do espaço, lado oposto onde ficava o palco. Reparei que na metade da peça, eles mais olhavam pra trás, pra ver se as batatas estavam prontas do que pra mim. Então, num ápice de emoção do pirata em meio ao mar, eu improvisei uma cena em que os piratas encontravam comida depois de tempos de fome no mar. E conclamei aos gritos " VAMOS AS BATATAS! VAMOS AS BATATAS". Eles entenderam bem o recado e aplaudiram. Não me lembro de ter comido batatas melhores na minha vida. 

* No encerramento do festival de teatro do Acre, o teatro estava entupido, tinham umas 600 pessoas, quando eu fiz uma cena em que o personagem grita "que entrem os outros atores!". Naquele momento, subiu um bêbado no palco dizendo que estava esperando essa oportunidade. Apesar do susto, gostei da intervenção e abri o espaço para suas poesias. Depois, levei-o para seu lugar e continuei a peça. Mais tarde fui saber que ele é um poeta muito conhecido por lá.

* Eu estava pra ser despejado de onde eu morava e começava a ficar preocupado com a falta de perspectivas concretas com a peça. Fui tomar café da manhã numa padaria contando as moedas. Pedi suco de laranja e pão com manteiga na chapa. Meu telefone tocou e, ao invés de ser alguém me cobrando, como eu esperava, era o diretor do Sesc do Rio de Janeiro dizendo que uma proposta minha havia sido aceita e que eu faria uma turnê por vários Sesc´s do Estado. A grana era boa e me viabilizaria alugar um apartamento até melhor do que estava. Mas, minha primeira providência foi substituir o pão com manteiga por um misto-quente.

* Em uma das primeiras apresentações em escolas públicas de São Paulo, eu disse para o diretor da escola que a peça que eu propunha estava em turnê nacional. Eu nunca tinha saído de Sampa com a peça. E ele perguntou por onde eu havia passado e eu menti meia dúzias de capitais brasileiras. Um ano depois eu, de fato, eu já havia passado por todas aquelas capitais. Talvez não tenha mentido pra ele. Tenha só adiantado uma verdade.

 

* Numa dessas apresentações em escola pública, eu fazia o pirata pra umas duzentas pessoas quando bateu um sinal. Todos os alunos, sem cerimônia, se levantaram e saíram. Foram embora. Fiquei fazendo a peça pra uma moça que veio me dizer ao final que aquela havia sido a melhor peça da sua vida. Era a primeira também.

* Depois de uma apresentação muito vibrante num grande teatro de Teresina- PI, fiquei uma hora no chuveiro gelado. Eu chorava e lavava a alma. Aquilo tinha sido muito intenso. Ao sair do camarim, já refeito, uma galera esperava pra falar comigo. Aquilo me fez sorrir e concluir que a coisa tinha sido intensa também para o público, o que me trouxe alegria única.

* Quando fazia o pirata no teatro Cacilda Becker em Sampa, a chuva era tão forte que começou a pingar no palco. Parei a peça algumas vezes pra abrir a boca matando minha sede com goteiras.

* Na minha única estada em São Caetano, pouco tivemos tempo pra fazer divulgação, então, pouquíssimas pessoas ficaram sabendo da peça. Entre elas, um casal que já queria ver peça minha e chegaram duas horas antes pra garantir seus ingressos. Estavam sem dinheiro trocado, e como meu produtor da época não tinha troco, pediu pra que fossem trocar seu dinheiro numa padaria que ficava do outro lado da rua. O cara só foi mediante a garantia de que seus ingressos estavam assegurados. Fez o produtor destacar e escrever seus nomes nos ingressos. A peça foi feita só para o casal.

* Numa sala de aula, os alunos se aglomeraram pra ver a peça que aconteceu em um canto. Vendo-os navegar na peça sem cenário e sem iluminação, apenas ator e público, constatei pela primeira vez na carne, a força humana que tem o teatro.

* Num presídio feminino do Espírito Santo, em uma cena de humor, o tempo parou para que eu olhasse os sorrisos que me cercavam. Os sorrisos conseguiam fazer aquele lugar terrível ser menos terrível. Vi que todos - sem exceção - sorriam, as presas, as carcereiras, as diretoras do presídio e até o policial em cima do muro com uma metralhadora na mão. O tempo parou pra que eu visse aqueles sorrisos que volto a ver agora, como se os sorrisos ainda estivessem fazendo o sol brilhar naquele lugar de dor.

* Gol! Gritou o rapaz que escutava o jogo no meio da peça. No início fiquei incomodado, mas ao saber que havia sido gol do timão, comemorei com ele e voltei a atuar.

* Em Salvador o teatro tinha ao fundo um vidro ao invés de ter parede por um motivo muito simples: a baía de todos os santos estava lá atrás. Na última cena da peça as cortinas do fundo se abriam e o público via as luzes dos barquinhos ao longe.

* Todos tinham me dito que a peça seria um fiasco naquela noite numa escola de ensino supletivo por causa da final do Big Brother. Não quis cancelar. Disse que se viessem dois, faria para os dois por eles terem rompido o óbvio, o que esperavam deles. O teatro entupiu de gente.

* Aquela empresa possivelmente patrocinaria a peça se os funcionários gostassem dela. Então, a diretora quis marcar apresentação para as sete da manhã, antes do horário de trabalho. Os funcionários que normalmente chegavam as oito foram convocados a chegar mais cedo nesse dia. Imagine você mesmo, como foi terrível para mim fazer peça pra eles e como foi terrível para eles ter que me assistir. No final todos ficamos felizes quando acabou.

* Eu fui para o festival sem dinheiro pra voltar pra casa. Havia viajado quarenta horas de ônibus pra chegar lá e só teria como voltar se ganhasse algum prêmio que era em dinheiro. Sempre desprezei os prêmios por saber que teatro não é campeonato. Mas esse eu precisava. E... voltei de avião.

* Numa cidade do interior de Sampa não havia teatro, só havia cinema, então, interrompemos a sessão do dia para fazermos a peça... aí eu bolei uma musiquinha que ficou ruim, mas legal: "excepcionalmente hoje não haverá cinema... excepcionalmente hoje haverá teatro!!!"

...  a seguir cenas do próximo capítulo... continua...

 

 

 



Escrito por viniciuspiedade às 01h48
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