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Blog de viniciuspiedade
 


            COLOCO ABAIXO O PRIMEIRO CONTO QUE "PUBLIQUEI". EU ERA OFFICE-BOY E TIRAVA AS XEROX DO LUGAR ONDE TRABALHAVA. ENTÃO, TIREI UMAS DUZENTAS XEROX DO CONTO E SAÍ DISTRIBUINDO PARA TODOS QUE CONHECIA. EU TINHA DEZESSETE ANOS.

 

Juízo final

 

 

Daqui a pouco, a grande hora. Falta pouco. Tô sem relógio, mas quando os fogos começarem, sem parar, é o sinal de que já é dia 25 de dezembro, o dia mais longe do ano, independente de que dia seja. O outro coveiro que trabalha comigo, deve estar com a família nesse momento. Deve estar se divertindo. Filho-da-puta. Não por estar com família, nós fizemos um acordo, eu ficaria trabalhando no Natal e ele no Ano Novo. Agora que ele tem uma família, ele acha fundamental passar o Natal com ela, não podia ser diferente, ele só fala nisso. Porra, enche o saco, eu sei de tudo que acontece na família dele, sei até como foi o sexo que ele fez para nascer seu filho. Foi aqui no cemitério. A esposa dele veio trazer flores para um filho que ela perdeu, filho que não foi feito com ele, mas antes de eles se conhecerem. Esse filho, morreu atropelado aos 5 aninhos, quando foi pegar sua bola amarela no meio da rua. Ele, o coveiro que trabalha comigo, era amigo do pai do garoto e conseguiu um pedaço de terra para que eles enterrassem o garoto aqui. Esse cemitério é de grã-fino. Só corpo de gente da alta sociedade por aqui. Muito artista. Inclusive, o corpinho da criança está enterrado entre um apresentador de televisão e uma cantora famosa. Mais um pouco à frente, a sepultura de um presidente. A mãe da criança ficou imensamente orgulhosa. No dia do enterro, de madrugada, horário em que no cemitério só ficamos nós dois, ela começou a gritar que se o filho não teve uma vida digna, por culpa do desnaturado pai, ele teria um enterro de primeira, enterro de artista importante. O filho iria para o mesmo céu dos artistas. Ela ficou muito agradecida ao meu companheiro de trabalho. Tanto que lhe deu um beijo de língua para agradecer. Ele se apaixonou. Ficou doente e tudo. Acho que ele nunca tinha beijado. Também, feio do jeito que ele é, que mulher iria querer beija-lo? Assim eu pensava até conhecer o caso dele. A esposa dele não é nenhuma jogada fora. É boa. Principalmente por ele me falar tudo que ela faz na hora boa. Ela se apaixonou por ele. Sei disso. Dá pra perceber!

Não é possível ela se apaixonar pelo que ele é fisicamente. Ele é feio demais! Mas o que ele faz e o que ele é pra ela, é o que vale. Depois do enterro, ela passou a vir aqui todas as noites. De dia são outros coveiros. Ele, o meu parceiro, disse pra coitada só vir de madrugada. Ele sempre a acompanhava até o pedacinho do garoto. Não dava nem pra perceber que lá havia um corpo. Ele disfarçou bem a cova.

Ele, apaixonado, preparou uma bela surpresa pra ela: mandou fazer uma lápide com o nome do garoto. Ele esconde a lápide até cinco minutos antes dela chegar, quando ele coloca no lugar onde mora o corpinho do garoto. Ficou linda a lápide. Mais chique que a do presidente. Ele, o filho da puta que trabalha comigo, é amigão do cara que faz essas pedras com o nome dos mortos. Daqui a pouco eu explico por que chamo esse meu querido companheiro de trabalho, de filho da puta. Ela ficou tão empolgada com a lápide, que o agarrou e cruzou a noite inteira com ele. Em cima da cova do filho. Eu me assustei. Os gritos dos dois eram capazes de acordar os mortos. Teve uma hora que quis gritar pra eles fazerem menos barulho. Mas eles gritavam tão alto, que minha voz seria nula. Foi nessa que nasceu o filhinho deles. O nome é o mesmo do que ela perdeu. Parece até que ela acredita que a alma do filho saiu do céu dos artistas e hoje habita esse corpo novo, agora com um pai de primeira. Palavras dela. Pode ser um pai de primeira, mas que é filho da puta é.

Agora, a poucos minutos do Natal, estou indo cagar. Sempre que fico com muito medo de alguma coisa, sinto uma vontade insuportável e insegurável de ir no banheiro. Isso me irrita. Mas fazer o quê? Aquele coveiro contou cada história que não consigo nem respirar direito. Eu nunca trabalhei no Natal. Sempre é ele. Até no ano passado foi ele quem trabalhou, mesmo com o filhinho. Parece que a família veio passar o Natal aqui.

Ele disse que é nessa data que as almas dos mortos saem das tumbas para ir ou para o inferno ou para o céu. Ele disse que o Natal foi criado justamente pra isso. Ele disse que o Papai Noel, é uma mistura do Diabo com Deus. Ele até quis me provar: o vermelho da roupa e touca do papai Noel vem do diabo. A própria touca do papai Noel vem do diabo. Como é meio Deus meio Diabo, só vem com um chifre. Caído, mas é um chifre. O bondoso velhinho dentro da roupa, é a cara de Deus. Os brancos espumados da roupa do papai Noel, vem do céu de Deus. A bota é mista. Meio de Deus pelo pé no chão e pela força positiva e meia do Diabo pelo jeito assustador e pela força negativa. O saco é do Diabo, parece até que ele leva as almas para o inferno dentro de um saco daquele. E os presentes são de Deus, pois sempre trazem alegria. Os gnomos que fazem os brinquedos são anjos do céu e as renas são os cachorros do inferno. E por aí vai. Parece que o Belzebu vem pessoalmente buscar seus escravos. Deus também, vem cercado de Santos. Sempre o Diabo joga uma partida de xadrez com Deus. E os anjos sempre lutam com os capetas. Os bons vão voando para o céu de braços abertos e os maus vão berrar ao se verem cercados por sombras, e vão diretamente encarar o fogo do inferno. Parece que Deus e o Diabo também tiram braço de ferro, joquempô, par ou impar e gol a gol. Quanto mais eu lembro disso mais eu cago. Por isso chamo meu amigo coveiro de filho da puta: ele me contou essa história pra me deixar assim como estou agora, cagando. Não que eu pense que vá acontecer tudo isso. Nem acredito nessa história, mas que eu fico com medo, fico.

Finalmente saí do banheiro e vejo a lua. Já não estou mais com tanto medo.

Está me dando caganeira. Estou com muito medo de novo. Os rojões começaram a estourar. Já é meia noite. Acho que é agora o tal do juízo final. Feliz Natal! Seja o que Deus quiser...

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por viniciuspiedade às 09h32
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