Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis




Blog de viniciuspiedade
 


                                                   Terceiro Mundo

 

 

                                                         "Não gosto mais de você! Quero dizer, gosto de você como pessoa, como amigo, mas não como homem, como namorado, entende? Poderemos ser bons amigos, sei lá, ir comer uma pizza vez em quando, andar pelo centro da cidade, como você gosta, vez em quando, até te ligo pra perguntar se está tudo bem e você faz o mesmo, vez em quando, o que acha? Gosto de você, sei que gosta de mim, então podemos ser bons amigos, não podemos?"

     Ouvir isso da mulher que mais amei, amo e amarei em toda a minha curta mas curtida vida, não é nada fácil. Na hora até que não sofri tanto. Quando recebo notícias ruins, na hora fico frio como um advogado. Uma hora e meia depois é que a coisa toda acontece aqui dentro de mim (nesse país que sou eu), as reverberações se iniciam lentamente até me tomarem até a raiz (ou a alma). Foi assim, por exemplo, quando meu pai morreu (ah, meu pai...), quando minha avó de parte de pai morreu, quando a irmã do meu pai morreu (tia Júlia), quando meu avô de parte de mãe morreu, quando meu primo de parte de mãe morreu (meu melhor amigo até os 13 anos), quando minha primeira professora morreu, quando Raul Seixas morreu, quando Kurt Kobain morreu, quando Tancredo morreu, quando Airton Senna morreu, quando meu gato Leleco morreu e, agora, quando morreu o amor dela por mim (mas na verdade aqui posso dizer bem assim “quando morri” ou “quando morreu ela”). 

     Nesse dia morreu a mulher que era minha e que me dizia você é que é meu, e que gostava de acordar de manhã com uma massagem que aprendi a fazer em seu corpo com meu corpo.

     Morreu a mulher que gostava de assistir a filmes de terror em casa, só pra me beijar nas horas pesadas e gritar de medo e pedir pra protegê-la do mal e subir em mim e gritar com medo e tesão e me chamar ora de herói, ora de monstro, e gritava e gemia e gemia gritando e dizia, depois de tudo, que havia sido o melhor filme de terror da sua vida, vida curta mas curtida, ela dizia.

     Morreu a mulher que me ligava no trabalho quando estava “naqueles dias”, só pra discutir e dizer coisas pra me ofender e depois se arrepender e olhando com olhos de quem clama dizer que só disse aquilo por estar quase menstruada. Infelizmente quando me disse, em outras palavras, me esqueça, ela não estava pra ficar menstruada. Aliás, foi a primeira pergunta que fiz pra quebrar o silêncio de três minutos depois de sua frase que poderia ser chamada de "bomba atômica da minha vida"; ela, com um sorriso que sorri quando está com dó de alguém, disse que não, que tinha pensado muito pra tomar aquela decisão e concluiu que eu seria um grande amigo e tudo mais, que fiz a bobagem de citar agora pouco aqui.

     Acho que falou tudo aquilo para que o impacto fosse menos destrutivo, como alguém que coloca luvas de boxe na mão, não só pra porrada doer menos, mas para o sangue se misturar à cor da luva e ser como nada.

     Num dia, ela assistindo ao filme "A Bruxa de Blair" até a metade, subindo em mim, me arrancando a roupa, me dizendo estou com medo da bruxa, e no outro (o dia seguinte, preste atenção!), me dizendo, em outras palavras, sai-da-minha-aba. Não entendi nada. Não conseguiria entender.  Meu tio, irmão de meu pai e que passou a me tratar melhor quando meu pai morreu (e que quase morre duas vezes em acidentes de carro), me diz sempre: não tente entender as mulheres, elas são totalmente obscuras. Elas são o grande mistério indecifrável da existência humana. Eu falo das belas! Sempre gargalho, não da frase em si, mas do jeito que ele fala.

     Quando acordo, todo dia eu acordo, ultimamente digo infelizmente acordo (dormir é não existir), já que melhor seria não acordar - não estou pedindo a morte, veja bem, peço um sono loooooooooongo-, ouço a frase que ela disse ao me dizer “me larga!”. Ouço a voz dela em tons diferentes, um dia sussurrando, outro berrando, outro implorando, outro gemendo, outro serenamente, todos os tons que ela tem ou que conheço, mas sempre a mesma terrível frase.

     Minha vida de lá pra cá é espera. Espero o tempo agir. O tempo, o tempo, o tempo. Conforme me disse uma amiga de minha mãe que chamo de tia por freqüentar minha casa desde a época em que chamava todos os adultos de tio ou tia, o melhor é relaxar e deixar o tempo te abraçar, só ele levará isso embora, só o tempo te salvará. Então espero o tempo me livrar disso. “Disso” que digo é essa sensação de país devastado pela bomba atômica que sinto nesse país que eu sou. Então só me resta o tempo, quero que ele me ame como a amo. Confio no tempo e tento viver sem olhar pra trás. É difícil consumar esse chavão. Principalmente quando vou aos lugares que ia com ela, começo a lembrar de cenas de felicidade vividas, em câmera lenta, como num filme americano gravado em Nova Iorque ou numa novela qualquer brasileira ou mexicana ou tailandesa. Só que em vez de ver um final feliz, como todos os filmes e novelas desse gênero, o que vejo é um passado, ah, uma vontade demolidora de reviver aquilo, aquilo tudo que vivi nesses tantos lugares com ela, ela com seu jeito e seu hálito, ela com sua ginga e seu hábito, ela com seus risos e seus seios, ela e seus abraços, ah, e seus beijos, ela toda minha, cheia de vontade, ela e seus olhos e eu que sou só saudade, eu e minha saudade, saudade doída, saudade de tudo que é ela que já não é mais minha como foi e como fui todo-todo-todo dela (ou pra ela).

     Tempo, me abrace com fúria, com ardor, com ódio, me leve daqui, tempo terrível, me leve pra longe disso que sou hoje...

     Pensei em me mudar de cidade, eu andava muito com ela pela cidade toda, ou seja, só vivo de lembrança. Nunca levar uma namorada a todos os lugares. É uma grande lição. A lição do dia. A cidade é grande, mas cada dia estávamos em um lugar. Éramos um casal criativo, merda. Pensei em me mudar pra praia ou pro campo, mas minha tia (a amiga de minha mãe que adora dizer o que devo fazer e que adoro seguir quase como se ela fosse a verdade em pessoa) disse que não adiantaria fugir. A lembrança dessa mulher me perseguiria até no inferno (talvez principalmente no inferno).

     Sou um país explorado pelos colonizadores. Ela me colonizou, tirou tudo que tinha de valor. Estou devastado. Sou o Terceiro Mundo em pessoa. Os índios que viviam em mim morreram. Meu ouro já está longe. Sou uma precariedade. Sou a África que foi estripada e estuprada, sou a América Latina sugada, chupada. Sou a Albânia. Sou o Golfo, o Iraque, a Índia. Afeganistão. Sou a Rocinha, sou o Capão, sou Brasilândia, sou Cantagalo. Sou a periferia que segue sangrando lá. A África tem salvação? Algum país da América Latina vai dar certo algum dia? Espero que sim. Quando isso acontecer, essa minha dor vai ser passado, e esse país que sou eu estará em plena ascensão.

     Enquanto isso não acontece, ando desprezando novas amizades (sobretudo, novas amigas)...



Escrito por viniciuspiedade às 23h09
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]